sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

LILIAN MAIAL


nua
é como fico
com teu olhar
desabotoando-me
LILIAN MAIAL/tela:man ray

REVISÃO DE ALQUILER


REVISÃO DE ALQUILER (*)
Sandra Fayad
Poema Sintipo VIII (**)

Silenciar me incomoda da cabeça aos pés.
E o justo, inconformado com o que tu és,
Indaga de si sobre se sofrimento e miséria
São, para ti, assuntos de preocupação séria.

Por que não te colocas no lugar do outro?

Mamãe Terra não pode ser motivo de pilhéria.
Se ainda não dorme tua consciência, altere-a!
Todo ser vivo merece ser amado, ao invés
Do sentimento, que lhe impões com tuas rés.

Ouve Samuel Freitas, na voz de Anna Muller!
Bsb, 05/02/2008
(*)Inspirado no soneto “Minhas interrogações”
do poeta Sá Freitas, declamado por Anna Muller
(**) Duas quadras com rimas que confluem para o miolo
Que tem um verso vadio como um velho tolo
Com rimas de rico assoalhar
E o último verso que rima com o intitular
(Fernando Oliveira)

PEDRO DU BOIS


RECEITAS

O pensamento povoa a mente
dissolvido em água
com três pitadas de sal

desmanchado o sentido
emborca o corpo:
estivesse dormindo

sua morte espouca
em alaridos
misturada à água
com três pitadas de sal

revigorada a memória
lembra a lesma vagarosa
que habitava o jardim

desmanchada em água
com três pitadas de sal.
(Pedro Du Bois, inédito)TELA:munch

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

PEDRO DU BOIS


TEMPOS
Pedro Du Bois
crianças em que o mundo se estendia
além da alimentação do banho e do conforto
o novo recém constituído em tantas dúvidas
e não havia medo em nossos atos e os fatos
se desenrolavam no correr dos dias onde fomos crescendo
e sendo tomados pela fúria da juventude não razoável
no que perseguíamos e sabíamos que à frente
o dia seguinte seria único e não se repetiria
estaríamos em outra esfera e as esperas
nossas inimigas seriam ultrapassadas no átimo
com que nos defrontaríamos com os tempos adultos
e cientes da utilitária responsabilidade seríamos mansos
nos afazeres e não faltaríamos à palavra empenhada
nos tantos juramentos do casamento e formatura
na seqüência do trabalho e do salário e do prêmio
negado ao acaso e o ocaso seria próximo e calmo
onde as estações repetidas do mesmo trem em viagem
teria único destino: o regresso e o retorno e o entorno
com que os corpos são decompostos
aos poucos na oxidação
das idéias e dos sentimentos embotados do final dos tempos.
"Pedro Du Bois - Poeta e contista, residente em Itapema - SC. Membro da Academia Itapemense de Letras e do Clube dos Escritores Piracicaba. Vencedor do IV Prêmio Literário Livraria Asabeça, Categoria Poesia, 2005, com o livro Os Objetos e as coisas".tela:DEIA LEAL

RIO DE JANEIRO SEM DINHEIRO


Rio de Janeiro Sem Dinheiro
Amigos. O sonho europeu acabou. Saí da Argentina e quem aproveitou, aproveitou, quem não aproveitou, deixou pra trás. Cheguei num Rio de Janeiro num calor daqueles. Quando fui ao caixa eletrônico do aeroporto, a memória não deu ordem pra sacar. Fiz duas tentativas e o resultado bárbaro da máquina se resumia à palavra, "inválida". O que vocês queriam? Com guerra no Iraque, Big Brother na TV, e um mês fora do Brasil sem usar o cartão, esqueci das três letras que coloca depois da senha. Gostaram da insensatez? Contava apenas com o dinheiro do hotel e do microônibus para o centro da cidade maravilhosa, exatamente isso! Como a credibilidade dos bancos para os seus clientes só vai até a segunda tentativa, parei. Já pensaram nas conseqüências de estar numa cidade grande e desconhecida, sem dinheiro? Só tinha uma saída: procurar um médico pra receitar um estimulante cerebral.O bicho vai pegar!
Mesmo nessa situação devastadora, tomei o micro e fui ao hotel. No caminho, passando pela Avenida Presidente Vargas, não encontrei o médico, e sim, medicamentos sambísticos. Era ensaio de duas escolas de samba no sambódromo. Fui com a bagagem ao hotel na Praça Tiradentes e armou-se conflito com o funcionário pra que ele recebesse somente no outro dia. Calma, calma, mantenha a calma, ele não vai aceitar. Pegou o dinheiro com o maior prazer. Só me restavam dois reais. Falei com o motorista de um ônibus ali na praça e consegui carona até o sambódromo (domingo à noite, 28 de janeiro de 2007). Naquele ensaio tinha a fome como samba-enredo e drama pessoal. Não que seja pró- samba, mas queria experimentar um pouco do que a Globo mostra como extraordinário. Sobre a cerimônia de ensaio das escolas posso dizer que também tem música de ambulância e de bombeiro pra socorrer as vítimas que não agüentam o calor. Numa determinada hora, os seguranças abrem os portões e parte do público que está na rua tem autonomia pra se sentir dono da festa. Do lado que a bateria da escola fica estacionada, tem placas indicando o lugar da comissão julgadora. Ao terminar o primeiro desfile, passaram quatro ônibus com cartazes na frente informando o nome da ala e do responsável. Os camarotes ficam fechados e só existe uma categoria, a geral. A multidão eufórica flutuando na arquibancada e as pessoas do meu lado conversando sobre escolas rivais. Cada integrante é uma estrela e sua alegria colabora pra levantar o ânimo da torcida. Fiquei tentando entender o que significava aquele evento, próprio do hemisfério sul. Se a festa é feita na maioria pelo povo pobre, como diz a TV, porque naquele momento, todos tinham dinheiro pra voltar pra casa, pra comer um cachorro quente, e eu não? Só dois reais pra sonhar. Arrastei do bolso o valor e comprei um refrigerante, minha porção de veneno pra enganar a fome e matar a sede. Lá pela uma da madrugada, defini a estratégia de volta ao hotel: seguir a multidão que ia a pé. Na solidão do quarto estava proibido de pensar em comida pra não destruir os últimos hemisférios do cérebro. Também não podia ficar maluco tentando lembrar letra de conta de banco. De manhã ao acordar, abriu-se uma trilha e veio nesta ligação, cada uma das três letras esperadas. Na própria praça tem uma agência da Caixa Econômica Federal. Os dedos digitaram sem precisar de luta. Foi a proporção exata que estava faltando. Vou te levar prum restaurante! A mais importante volta ao mundo da alimentação: suco, café, almoço e sobremesa. "Avisa lá, avisa lá, avisa lá êô, avisa lá que eu vou" comparar com as comidas argentinas. E esse foi o início de uma nova era do sobrevivente da senha digital.
Edmilson Vieira, é artista plástico e escreve crônicas. dnv01@hotmail.com

O ESPECTRO DA VIOLÊNCIA


O ESPECTRO DA VIOLÊNCIA
O agravamento da violência é um fenômeno planetário. Aqui no Brasil atinge proporções assustadoras. Cidades como o Rio de Janeiro e S. Paulo, vivem um permanente estado de insegurança e medo. Nas duas metrópoles, mas principalmente na primeira, já existem áreas onde o poder público não mais consegue exercer o controle efetivo sobre as pessoas, sendo comandadas segundo leis do crime organizado. Esse poder paralelo imprime um domínio brutal sobre as sofridas populações locais.
Há uma ou duas décadas a violência era um problema quase que restrito aos grandes centros urbanos. Porém, hoje, mesmo as mais remotas localidades no interior do país são alvos de toda sorte de barbárie: assaltos, seqüestros, assassinatos e até atentados, como podemos assistir diariamente nos noticiários das TV(s).Fora dos limites nacionais, em quase toda parte se presencia uma constante ameaça beligerante, agora mais difundida pela nova política dos “arautos da liberdade entre os povos”. Mesmo nos EUA, o perigo de atentados e ações amoucas rondam o território americano que parece ter se tornado muito mais exposto depois de 11 de setembro.
Esse fenômeno generalizado da violência deve ser observado sob inúmeros ângulos e não mais pode ser subestimado com soluções simplistas do tipo “tolerância zero”. Possui implicações muito mais complexas que demandam uma análise totalizante dos seus processos ensejadores associada às suas particularidades históricas. Pode-se supor que ele se intensificou consideravelmente depois de consolidada a hegemonia do “livre mercado mundial”. O enfraquecimento dos regimes baseados no Estado Social de Direito repercutiu muito mal no mundo globalizado, principalmente em países (como o Brasil) onde o Poder Público nunca conseguiu exercer um papel muito efetivo na construção da democracia.Nos regimes liberais, o Estado, depois da 2ª grande guerra mas, fundamentalmente, após o desastre da economia capitalista na década de 30, passou a ter uma participação decisiva na vida econômica e social dos países democráticos. Funcionou como uma importante aresta para reduzir as desigualdades do sistema de mercado, entretanto, essa receita não mais consegue se ajustar aos novos caminhos trilhados pela globalização. Com efeito, é notório o sentimento de abandono e a falta de perspectivas daqueles que agora não mais podem contar com políticas públicas generosas e que antes lhes davam o alento de sonhar com a possibilidade de inclusão social que o modelo intervencionista nos moldes keynesianos pregava. O desamparo é ainda mais exacerbado aqui, nos limites do mundo dependente e pobre, com sociedades extremamente desiguais em que a miséria é um estopim cada vez mais curto para uma explosão de violência sem controle.A cada dia se desfaz com extrema rapidez os laços que garantam uma convivência pacífica entre as pessoas. O espírito solidário está sendo soterrado por uma mistura letal de individualismo, ódio e revolta capaz de dissolver todos os vínculos humanos e lançar os homens na completa anomia.A gravidade do momento inspira por uma reflexão de todos para definir os objetivos e o sentido da coexistência: quer-se um mundo justo com oportunidades iguais para todos, ou almeja-se a competição e o individualismo como regras indiscutíveis de conduta. A primeira abre um leque de enormes possibilidades ao gênero humano, a segunda poderá afundar a humanidade definitivamente num inferno tão absurdo que viver acabará se transformando uma tarefa impossível.
CAETANO PROCOPIO/TELA:salvador dali

MEU CARNAVAL


MEU CARNAVAL
Efigênia Coutinho

Não duvido da luz dos astros,
Da noite, de dia o sol, o calor.
Meu gosto revela minha fantasia!
Com folia e alegria, o meu amor.

Chame o meu carnaval de Idolatria ,
tem Ídolo realce a quem eu amo,
toda minha folia a um só se alia,
e com um só canto eu o proclamo.

Hoje é folia o meu amor galante,
do gozar cede com prazer neste dia.
Por isso, a minha folia é tão constante,
neste imenso palco somos loucos.

Nessa folia de carnaval com amor:
Sou sua cúmplice do ato criminoso,
Dou-me ao Pierrôt amado e amoroso.
Que implora amor e busca sua presa!

Balneário Camboriú
Carnaval 2008