quinta-feira, 22 de setembro de 2011

PODE SER QUE ME ENGANE


Pode ser que me engane

Ferreira Gullar
Os principais fundadores do PT deixaram o sonho do igualitarismo e cuidam de seu próprio enriquecimento
Dando curso a minha tentativa de entender quem é esse cara chamado Lula, acrescento à crônica que publiquei aqui, faz algumas semanas, novas observações.Por exemplo, fica evidente que Lula e seu pessoal, ao chegar ao poder, elaboraram um plano para nele permanecer. Aliás, José Dirceu chegou a afirmar isso, poucos meses depois da posse de Lula na Presidência: "Vamos ficar no poder pelo menos 20 anos".
O mensalão era parte do plano. Descartar o PMDB e aliar-se a partidos pequenos para, em vez de lhes dar cargos ministeriais, lhes dar dinheiro. Sim, porque, para permanecer 20 anos no poder, era necessário ocupar a máquina do Estado, tê-la nas mãos, de modo a usá-la com finalidade eleitoral.Por isso, um dos primeiros atos de Lula foi revogar o decreto de Fernando Henrique que obrigava a nomeação de técnicos para cargos técnicos. Eliminada essa exigência, pôde nomear para qualquer função os companheiros de partido, tivessem ou não qualificação para exercer o cargo.Ocorreu que Roberto Jefferson, presidente do PTB, sublevou-se contra o mensalão e pôs a boca no mundo. Quase acaba com o governo Lula. Passado o susto, ele teve que render-se ao PMDB e distribuir ministérios e cargos oficiais a todos os partidos da base aliada. Não por acaso, os 26 ministérios que recebera de FHC cresceram para 37, mais 11.No primeiro momento, ele próprio deve ter visto isso como uma derrota, mas, esperto como é, logo percebeu que aquele poderia ser um novo caminho para alcançar seu principal objetivo, isto é, manter-se no poder.Se já não podia comprar os partidos aliados com a grana do mensalão, passou a comprá-los com outra moeda, entregando-lhes os ministérios para que os usassem como bem lhes aprouvesse: dinheiro ali é o que não falta. E assim, como se vê agora, nos ministérios dos Transportes, da Agricultura, do Turismo, cada partido aliado montou seu feudo e passou a explorá-lo sem nenhum escrúpulo.Lula, pragmático como sempre foi, fazia que não via, interessado apenas em contar com o apoio político que lhe permitiria garantir a sucessão, isto é, eleger Dilma. Essa candidatura inusitada -que surpreendeu e desagradou ao próprio PT- era a que convinha a ele, pelo fato mesmo de que se tratava de alguém que jamais sonhara com tal coisa e que, por isso mesmo, jamais se voltaria contra ele ou contrariaria seus propósitos. Não é por acaso que, regularmente, eles se encontram em jantares a dois, para acertarem os ponteiros e ele lhe dizer o que fazer.
Não estou inventando nada. Não só ambos já admitiram esses encontros como ela, recentemente, respondendo a uma jornalista que lhe perguntou se discordava de Lula, respondeu:
"Não posso discordar de mim mesma". Isso não exclui, porém, um fator contraditório: a necessidade que ela tem, como a primeira mulher presidente do Brasil, de afirmar sua autonomia.Cabem aqui algumas considerações. Todos sabem que o PT, nascido partido da esquerda revolucionária, não admitia deixar o poder, uma vez tendo-o conquistado. Os demais partidos aceitam a alternância no poder porque estão de acordo com o regime.
Já o partido revolucionário vem para implantar outro regime, que exclui os demais partidos. É claro que esse era o PT de 1980, que não existe mais, mesmo porque, afora o pirado do Chávez, ninguém em sã consciência acha que vai recomeçar o socialismo em Macondo, quando ele já acabou no mundo inteiro.Disso resulta que os principais fundadores do PT abandonaram o sonho da sociedade igualitária e cuidam de seu próprio enriquecimento. Por esperteza e conveniência, porém, tentam fingir que se mantêm fiéis aos ideais socialistas. Desse modo, dizendo uma coisa e fazendo outra, enganam os mal informados, enquanto usam o poder político e institucional para intermediar interesses de grupos econômicos nos contratos com o Estado brasileiro.Ideologicamente, é preciso distinguir Lula do PT, ou de parte dele, que não consegue aceitá-lo como um partido igual aos outros nem perceber Lula como ele efetivamente se tornou. Nada mais esclarecedor do que vê-lo chegar a Cuba em companhia do dono da Odebrecht, no avião particular deste, para acertar as coisas com Fidel Castro.
FONTE: FOLHA DE S. PAULO

terça-feira, 20 de setembro de 2011

OSWALDO COLOMBO FILHO


O PODER ESTÁ ATRÁS DO TRONO

Discordo em essência, e pelo total despojo de cidadania daqueles que se manifestam não haver relevância a forma pela qual o novo Ministro do Turismo chegou à pasta; dizem: "Ao povo, não importa o apadrinhamento do novo titular do Ministério do Turismo, mas sim a sua capacidade e a sua honestidade na gerência do cargo que vai ocupar" (frase extraída da coluna opiniões). A mim, e a muitos cidadãos conscientes, tudo importa, pois é uma afronta coligar apadrinhamento à competência que somente se dá pela qualificação profissional, expressão técnica, funcional, acadêmica e probidade do indivíduo escolhido. Isto é o mínimo desejável. Tal qual não é mais aceitável a indicação política para Ministros das mais altas Cortes de Justiça, tais cargos deveriam ser ocupados por juízes de carreira, e para tanto já concursados e eleitos por seus pares. Hoje nem sequer temos ministros que foram juízes e, portanto aprovados em concursos públicos; aliás, alguns foram reprovados mais de uma vez em suas vãs tentativas, e estão lá a dar pareceres ou a reter processos em benefício de quem os indicou. Isto não Justiça, é fruto da injustiça qualificada pelo apadrinhamento e pelo nepotismo. Vide caso do clã Sarney no STJ e que até garantiu censura ao jornal O Estado de S. Paulo; os expurgos nas cadernetas de poupanças nas mãos de Toffoli no STF; ali também estão os aposentados e o fator previdenciário. Portanto, o apadrinhamento é indefensável e se fosse capaz de algum resultado o estado do Maranhão não seria o mais miserável do país, teria deixado a muito de ser uma reles capitania hereditária. O apadrinhamento, tal qual o nepotismo, largamente difundido no Congresso, e em boa medida na cultura dos brasileiros, não faz parte do manual da competência e da meritocracia; mas sim do conchavo da politicalha, e isto sem exceção tal qual o episódio dessa indicação ao Ministério objeto do tema que sequer deveria existir. Demonstrou mais uma vez a nós, - "a parcela da nação consciente", que temos uma pseudopresidente; pois quem mandou um dos seus assumir no feudo "Turismo", foi o seu dono - José Sarney e com total beneplácito e auspícios de Rousseff. Pior ainda é alguém acreditar que haja faxina, ou qualquer sentido de limpeza ética. Nada mudou apenas a técnica diversionista de se mostrar a público outra forma do populismo atuar. Desceram do palanque, afastaram-se do linguajar de botequim para adotar tom sóbrio e buscar o elo perdido e ainda não adesista ao populismo da gestão anterior. Mais do que nunca e com o fisiologismo dirigindo o país, de forma escancarada, pode-se utilizar a histórica expressão: "O poder está atrás do trono", e nada é o que se vê. -

Oswaldo Colombo Filho colomboconsult@gmail.com São Paulo

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

LUIZ ROSEMBERG FILHO


Câncer, o imenso sonho para todos
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Por Luiz Rosemberg Filho e Sindoval Aguiar, do Rio de Janeiro

O filme de Glauber Rocha ainda hoje marca nossa cinematografia. E assombra aqueles que buscam o sucesso fácil, a prostituição e a traição.

“Que ruim é a vida e o quanto nos degeneramos! Falar de seus sofrimentos e permanecer tranquilo quando o mal acontece!”
Bertolt Brecht

Colagem de Luiz Rosemberg Filho
Quem cedeu uma só vez à lógica do mercado emburrecido, ocupado e acrítico, não encontra outra saída a não ser justificar a sua traição inescrupulosa ao sistema de burocratas, burocracias, ancines, editais, privilégios... numa espécie de reencarnação do não muito distante golpe militar de 1964. Eles não queriam um cinema dominado, patriótico e a reboque da TV e de Hollywood? Conseguiram. Foram pacientes para alcançar esse fim com segurança, e que veio curiosamente com a “abertura”. Ora, “Chico Xavier”, “De Pernas Para o Ar”, “Cilada.com”... é o quê? Resposta: uma total submissão ao fascismo, ou uma continuação da “revolução” por outros meios.

Nossos “cineastas” aprenderam a serem obedientes e servis. Legitimam o que seja, desde que o mal-estar do saber seja a referência dominante. Pensam como se estivéssemos em Hollywood, onde usam o cinema para dopar o público e transformá-lo numa caixa registradora, em um suporte da indústria, deles! E claro, uma fortificação militar-econômica-cultural da ocupação idiotizante do planeta. Digamos que a guerra moderna passe pelo cinema. E nossos idiotas não percebem que trabalham para o Império, não para o Brasil. E menos ainda para um cinema reflexivo, nosso.

Talvez a real liberdade em Glauber seja uma reivindicação de independência, em relação a muito de seus companheiros que traíram não o Manifesto da Fome do cinema novo, mas o próprio cinema como um todo. Associaram-se com a porca publicidade, à televisão mais podre do Continente e a um jornalismo oficial imundo, para se sentirem protegidos por um mercado que segue não sendo nosso. E daí para frente, inseriram-se no mundinho idiota das celebridades duvidosas, cultuadas pelo senhor Amaury Jr, velho dissecador de cadáveres.

Claro que Glauber Rocha, que foi uma imensidão de sonhos para todos, foi chamado de louco, degenerado e ainda hoje sempre que possível é avacalhado por incompetentes publicitários de plantão. E a partir de tanta inveja, o silêncio funciona como uma muralha contínua enfiada entre o sonho e a realização.

E muitos são os idiotas falsamente sensíveis que formulam orientações fascistas como sustentáculo de suas vidinhas medíocres, com suas intimidades podres e conservadora. Mas, enganar o povo sempre foi fácil. Difícil foi fazer bom cinema. E poucos foram os que fizeram, entreabrindo novos sonhos para todos. Ou seja, Glauber foi um outsider em relação aos seus coleguinhas de sucesso. Instrumentalmente, um criador de sonhos poéticos amaldiçoado por reacionários e velhos conservadores, as velhas múmias da esfera cultural. Mortos-vivos que usaram o cinema, sem o pensarem em profundidade. Basta que se veja seus filmes horrorosos, fechados só com o sistema do dinheiro. Cineastas menores raivosos, complexados e imersos no cabresto do sucesso a qualquer preço. Claro que no capitalismo o dinheiro é a única identidade respeitável. Mas não a qualquer preço pois, então, teríamos que aplaudir a prostituição e a traição.

Emoldurados no sucesso artificial de celebridades empalhadas são, no máximo, seres deserotizados, burocratas velados no ancoradouro dos editais e das panelinhas. Decupagem clássica da malandragem oficial. Uma experiência da superfície dos “podres poderes” da república. Um reforço ilusionista na história como erro. No sentido contrário, e sem exageros, o cinema de Glauber segue sendo mais vanguarda que todo esse lixo vendido como papel higiênico vitorioso. Lixo investido de editais, burocratas, idiotas, “sucesso”, festivais, prêmios e poder. Mas sem o próprio mercado, claro!

Não somos contra um cinema de mercado sensível e inteligente, como foi o caso de “Macunaíma” de Joaquim Pedro de Andrade. Mas dá para comparar com “De Pernas Para o Ar” ou “Cilada.com”? Mas é cinema ou televisão? Como televisão até se justifica, pois ela segue sendo um espaço fixado no lixo da história. Um conglomerado infinito de aberrações preso ao velho fascismo. Uma espécie dissecação geométrica da m... e onde se especializa uma hostilidade permanente ao pensamento. Claro, com todos se julgando sensíveis e profundos. Obscuros, mas iluminados pelo artifício do sucesso a qualquer preço. E com ele, a prostituição e a “nota”. E sem um mínimo de solidez não há como defender essa televisão que existe hoje aqui. Menos ainda o cinema miniaturizado que vem dela. Na verdade, negócios instrumentalizados pela ideologia dominante.

Basta ver os temas, os “atores”, as imagens e o resultado final, que valorizam, claro, a imbecilidade capaz de dopar como o cinema de Hollywood. A pergunta que fica é: não há como ser melhor? Essa caixa-preta da ideologia dominante não pode ser aberta? Esses mandarins eletrônicos não podem ser substituídos por ideias, sonhos, saber e confrontos? Dizem que a ditadura acabou, mas a TV permaneceu igual, e sempre piorando. E quem ganha com isso? O espetáculo vazio ou o telespectador?

Octavio Paz diz, sabiamente, que somos menos uma tradição a seguir do que um futuro a construir. Porque o que tememos é o passado, a nos intimidar, na construção do novo como ruptura e avanços; e como desconstrução e construção como uma arqueologia de movimentos, busca e transfigurações sobre o já existente. E com isso, tudo fica a dever como tempo, memória e história, uma arquitetura de nossa presença, sempre desconhecida.

E se não construímos esse básico, todas as possibilidades ficam impossibilitadas e até a música se omite, refugiada como proteção em sua força e evolução, mas sem nunca perder as dissonâncias somente possíveis na arte. Também o cinema, este que os USA encarceram como produto e entretenimento em seu apelo na lógica do capitalismo. Mas, a lógica é somente parte de um apelo diferencial para percepção e cognição e não para conduzir uma razão. Porque nenhum sentido pode se definir como o de um fim único e imutável, transcendente e ontológico. Sendo necessário construí-lo e desconstruí-lo sob a lógica das diferenças e do conhecimento, o que os grandes experimentadores da música e do cinema sempre fizeram ao ultrapassar o próprio tempo.

Nossa tarefa será sempre o caminho do desconhecido porque o conhecido é sempre o repouso do trágico! E o novo será sempre o moderno a ser desconstruído, vencendo as barreiras da cultura, da lógica, da técnica e do próprio tempo. E, o Brasil, tem sido um exemplo no alargamento dos processos contra todos os domínios e os do próprio tempo, um exemplo de retardo, ignorância e exclusão. Muitos procuram o nosso país pela certeza de nossos princípios de busca e descobertas ainda não definidas como gostaríamos numa realidade concreta. Esta que afirma e nega, não trucida!

Ontologia é essa linguagem, essa arquitetura, esse processo em pleno movimento de ser, estar e vir-a-ser. De diferenças, experimentos e dissonâncias e que a razão lógica das excedências, o poder econômico, não tem permitido. Na construção dos espaços como arquitetura de descoberta e desenvolvimento. Um caminho para um encontro mais próximo de nós. Reunindo as possíveis qualidades e valores de que somos possuidores como indivíduos e como totalidade.

Indiscutivelmente, muito diferentes do que se globaliza como homogeneização de uma vontade única intocável e imutável. O que já percebemos que precisa ser tocado e transformado com muito de nós e de nossos valores por necessidades históricas e vontades. Este é o sentido de uma afirmação ontológica em Marx e Lênin. Ir além de nós para atingir o todo, o que já atingimos na música e que Humberto Mauro ousou em seu primitivo idealismo. E que, para glória de nosso cinema, o que Glauber Rocha conseguiu em seus filmes, exorbitando em “A História do Brasil” e nesse “Câncer”, colocando-nos onde sempre estivemos: entre animais e onde cada um de nós possa meter a carapuça ou arrebentar os espelhos antes da submersão. O mesmo que Goethe sugeria como redenção, as diferenças entre um ser humano e um ser irracional, pela cognição, pelo pensar, pelas associações e pela linguagem...a comunicação.

Um processo de abrangência arquitetural que podemos construir desde que pensemos em nós, no aqui e no além, como um todo. Nosso trabalho e nossas ideias precisam partir da consciência de que toda realidade é mais concreta do que real, ou verdadeira ou falsa. E que somente pode existir de fato se for construída e desconstruída na dinâmica de um processo de linguagem e comunicação. Daí a necessidade de uma presença e de um trabalho velado e descoberto, no particular e no todo, como partidos, a organização e a própria realidade em suas percepções, econômicas, políticas e culturais.

Sabemos ser a arte a única forma de linguagem mais abrangente no processo, mesmo submetida às injunções econômicas e de poder, de desvios e da própria censura. Falando todas as linguagens, a arte consegue escapar porque sua relação é muito próxima do poder como expressão e movimentos. Mesmo não definindo ou protegendo os outros espaços em que sua autenticidade não se discute, o lugar comum onde se confina ou se exila e que, pode até servir como expressão, como suporte, à arte mais próxima do poder. Isso ocorre na música, na pintura, na literatura como no teatro e no cinema. A presença do poder será sempre inegável! E dela a arte escapa pela linguagem de incontidos formalismos, onde a presença do novo pode estar contida e já, subjetivamente, expressa e de difícil percepção. Escapando ao peso da realidade que jamais compensa.

Essa busca de ontologia é uma necessidade para o entendimento e a procura de nosso país, esse nunca procurar e muito menos encontrar. O que não podemos deixar de perceber e respeitar nos trabalhos de Humberto Mauro e de Glauber Rocha, nossos suportes no cinema brasileiro de formação e de ideias, de contradições e antagonismos que as múltiplas significações elevam. Cada um deles com sua especificidade e na sua abrangência que só o cinema pode permitir e sugerir, numa elevação de gêneros, tempos, entendimentos e formalismos.

Não resta a menor dúvida de que ao sermos vítimas de um processo civilizatório, existem outros aspectos que podemos até aproveitar como superação. Porque foi deixado aberto um campo de linguagem e de oportunidades num processo de descobertas de tempo e história, e de um passado que ainda nos assombra. Pela violência e a escravidão ainda tão presentes sob vários símbolos e aspecto que a política e a cultura vão dissimulando, material nada retratado em nossas obras culturais e, quando existe, sem a devida precisão.

Mas essa nossa presença no atraso e no progresso pode ser uma boa resposta como recuperação e oportunidade. Algo que a nossa arte ainda não negou, em Humberto Mauro e Glauber principalmente, como primitivismo, idealismo, performance e como um moderno revolucionário (em Glauber). Manifestações de um processo revolucionário da arte que, em condições como as nossas, dão-se para dentro (com consequências trágicas como na morte do cineasta). De qualquer forma, estão presentes em tais manifestações as possibilidades do avançar.

O Brasil parece estar tendo uma relação especial com o tempo, ao desafiar essa lógica que a razão impõe, distante da cognição como busca e procura, fora do eixo que a razão central determina. Estando nós mais conscientes de que todo colonizador se assemelha, e só se diferencia pela violência e pelo volume dos saques, como exorbitância e capacidade nas prepotências. Mais ou menos armados, não importa. E onde o saber nunca exorbita mas pode refletir. Como em nós no passado confronto histórico entre Portugal e Holanda. Esta, na reforma e no domínio do capitalismo inicial. E Portugal, na contrarreforma, atrasado, dependente do repasse dos saques como sobrevivência, permitiu-nos uma realidade concreta ainda muito presente como indecisões para uma melhor definição sobre nós e nossas possíveis descobertas.

Uma, a nossa grande descoberta, é a coragem (como a de Glauber), de expor e de subverter nossas fraquezas, nossas misérias e nosso desespero. E localizar, em sua inteireza, sem medo de suas demências e patologias como nesse delicado e ousado “Câncer”! Algo comparável à experiência dos jesuítas que, pressionados em sua origem, buscaram uma saída aqui entre nós, com os sete povos das missões. Experiência frustrada, como frustradas são as diferenças econômicas, políticas e culturais, até que possam se afinar ou se afinar.

O mundo de aprendizados e revelações ontológicas é muito amplo e pouco oportuno, o que nos cabe é descobrir e insistir, como arte, cinema e vontade. No cinema, Mauro e Glauber continuaram nossas maiores referências, superando o tempo e a realidade. Foram dois cineastas altamente competentes e distantes do udenismo farisaico de nossos mentores midiáticos do cinema de conciliação e entrega, que transformam o público em privado, como patrimônio de grupo.

Humberto Mauro foi um descobridor do descoberto. Com uma vontade além do idealismo. Redentora! O que Glauber Rocha desenvolveu e ampliou por outros meios e no enfrentamento das mesmas realidades. Domínio, dependência e submissão. E por tudo o que a globalização definiu como domínio dos meios de produção e de compensações pelas entregas, traição e delação. Por tudo o que a linguagem do cinema possibilita sob o domínio da burguesia e das subjetividades, onde tudo é possível, desde que abaixo do Equador. Como na Colônia!

Humberto Mauro se superava pelo sentido ontológico que imprimia ao próprio trabalho, em todos eles, e seus curta-metragens não nos deixam sem resposta para estas indagações. Como superação de si mesmo, passou a falar Tupi, e em seu rádio amador, ampliando comunicação e linguagem. Procurando ontologia. O mesmo que Glauber também andou fazendo, percorrendo o mundo para retornar ao mundo, o de “Câncer”. Nesse “Câncer”, a inventividade do choque e do lugar comum como nossa realidade. Um estupro do banal a nos estimular e fazer ser, como na TV e na mídia no dia a dia.

E como Glauber soube montar esses lances de dados. Na política, na poesia, no olhar e no ouvir. Nas imagens que amamos e que odiamos! Nossos paradoxos de entendimentos e desentendimentos. Glauber tentou uma inversão de Shakespeare pela linguagem irreverente em seu curta sobre a morte do pintor Di Cavalcanti, trepando no caixão para melhor enquadrar o morto. Era a síntese e erudição dialética da beleza do cineasta, a de rompimento com a realidade concreta, a de domínio e êxtase da burguesia. Verdadeiro discursivo Shakeasperiano!

Em “Câncer”, Glauber confunde e acelera a entropia, com realidade e ideologia, realismo e forma, super contextualizada para uma proximidade da loucura, onde tudo, quase se toca com o nada e desaparece nas presenças fúteis, banais e trágicas de nossa existência. Glauber, nesse filme, é a voz dos paradoxos, uma paráfrase, já que as imagens são superadas por ele, como cultura e despojamento, revestidos de audácia e de astúcia. Ele sabia que para fazer um filme assim era preciso coragem e vocação quase mediúnica! Porque só assim se tocam memórias que o tempo quer esquecer.

Mas a maior violência sobre as estruturas são culturais e subjetivas, subjacentes – aquelas que a burguesia impõe ao homem comum, pelo temor da ordem e do poder e pela submissão econômica hierarquizada, numa precisa destruição do andar de baixo. Sem apelo e sem retorno. Glauber tentou nos ajudar a nos descobrir. A descobrir nosso câncer, até agora, incurável! No hospital!

10/9/2011

Fonte: ViaPolítica/Os autores

“Câncer” – ficha técnica:
Ficção, longa-metragem, 16 mm, preto e branco. Rio de Janeiro/Roma, 1972, 950 metros, 86 minutos; Companhia Produtora: Mapa Filmes (Brasil); Distribuição: Embrafilme; Lançamento: 2 de setembro de 1982, São Paulo, Centro Cultural São Paulo; Coprodutores: Gianni Barcelloni, RAI - Radiotelevisione Italiana; Diretor: Glauber Rocha; Diretor de fotografia e câmara: Luis Carlos Saldanha; Som direto: José Antonio Ventura; Sincronização: Raul Garcia; Montadores: Tineca e Mireta; Laboratório de imagem: Líder Cine Laboratórios; Elenco: Odete Lara - mulher; Hugo Carvana - marginal Branco; Antonio Pitanga - marginal negro; Eduardo Coutinho - ativista; Rogério Duarte, Hélio Oiticica, José Medeiros, Luís Carlos Saldanha, Zelito Viana e o pessoal do morro da Mangueira, Rio de Janeiro.
(Fonte: Tempo Glauber)

Mais sobre Luiz Rosemberg Filho
rosemba1@gmail.com

POLÍTICA


''J''ACCUSE''

Turismo é arte, amor à pátria, aptidão, bom gosto, etiqueta e, sobretudo, técnica de administração especializada nesse tema tão em voga e hodierno. Turismo nada tem que ver com festas de aniversários em... motéis. E por falar em turismo, acabo de ler que "cai o 5º Ministro de Dilma" e que o "PMDB oferece(à presidente) oitenta nomes para a vaga(Estado, 15/9). Entretanto, eu "duvideodó" que um desses oitenta tenha pelo menos um dos atributos que acima eu citei. Agora, para arremedar Zé Dirceu, o "formador de quadrilhas", tenho certeza que qualquer um deles tem forte maneirismo. Como há males que vêm para o bem, eis aí ótima oportunidade para a presidente indicar e convocar, patrioticamente, alguém que tenha sido formado em uma boa faculdade especializada, com mestrado e doutorado profissionais e que seja preferencialmente apartidário, ou que então jogue o jogo dos interesses da nação e não dos bolsos de "A, B ou C" e, até mesmo, de "L". Duvido, também, que dos oitenta deputados federais do PMDB ofertados como mercadorias à presidente Dilma, ao menos trinta não apoiassem esse ato corajoso e de respeito de S. Exia. Acredito, piamente, que toda a oposição aplaudiria a presidente e que, como consequência, ela deixaria de implorar apoios de sua própria bancada e de todos os partidos da situação. Visível e excessivamente perceptível o fato de que Dilma é refém de um Congresso asqueroso e perverso. Essa reação seria uma maneira inteligente e correta de, mais do que de ninguém, livrar-se de Lula e do PT, também. Concretizando-se meu devaneio - estou ciente, sim, que meu desiderato não passa de um oásis imaginário - estaríamos testemunhando o surgimento do "mensalão" do bem, da dignidade e do resgate de nossa hoje vilipendiada nação. Como disse Émile Zola em seu artigo "J''accuse", sobre o caso Dreyfus, em 13 de janeiro de 1898 no jornal francês "L''Aurore", e como digo eu aqui e agora, ainda no meu inocente devaneio: "Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice."( Meu dever é falar, não quero ser cúmplice). Afinal de contas de quem é o ministério? Da presidente da República Federativa do Brasil, dos partidos políticos ou delle?

João Guilherme Ortolan guiortolan@gmail.com
Bauru

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A MAIOR USINA SUJA SERÁ EM PERNAMBUCO


A maior usina suja do mundo será em Pernambuco
Heitor Scalambrini Costa
Professor da Universidade Federal de Pernambuco


Já esta se tornando lugar comum, com toda pompa e marketing político, os anúncios bombásticos feito pelo governador de Pernambuco a respeito da chegada de novas empresas que vem para aqui se instalar, quase sempre em alguma cidade no entorno do complexo industrial e portuário de Suape.A imprensa saúda o progresso chegando, o dinamismo da economia pernambucana. Três palavras chaves são abusadamente utilizadas e propagandeadas aos quatro ventos, justificando e anestesiando a população em geral e os setores da elite local, que de dia cantam loas a necessidade de proteger a natureza, o meio ambiental, mas na calada da noite, estimulam, promovem e saqueiam as matas, os rios e o ar que respiramos. Progresso, criação de postos de trabalho e geração de renda, bendita seja esta tríade que consegue calar toda uma população, e consentir que a geração futura pague um alto preço pela irresponsabilidade de alguns, mas com o consentimento de muitos.Pernambuco é um exemplo de que estamos acelerando em marcha a ré, na contra mão de oferecer melhor qualidade de vida ao seu povo, e perdendo a oportunidade de mudar o paradigma atual, baseado no chamado “crescimento predatório”, que utiliza argumentos do século passado de que o “novo ciclo de desenvolvimento (?)” é a “redenção econômica do Estado (?)” e assim exige o “sacrifício ambiental”. Palavras entre aspas ditas pelos gestores públicos que tentam confundir, como um discurso pela busca de sustentabilidade entre empresas e governo, mas que aumenta o consumo e a produção de energia suja.Não bastasse a devastação dos últimos resquícios de mata atlântica, de manguezais, das florestas naturais, da poluição dos rios, agora o Estado atrai e apóia a instalação de termoelétricas a óleo combustível, o combustível mais sujo para produzir eletricidade dentre os derivados de petróleo, perdendo somente para o carvão mineral no ranking de maior emissor de gases que provocam o efeito estufa, ou seja, o aquecimento global, correspondente ao aumento da temperatura média da Terra causador das temidas mudanças climáticas.A termelétrica anunciada com a maior usina do mundo que pretende se instalar no Cabo de Santo Agostinho terá uma potência instalada de 1.452 MW, ou seja, a metade da hidroelétrica de Xingó, produzirá anualmente, caso funcione ininterruptamente, em torno de 8 milhões de toneladas de CO2. Além de outros gases altamente prejudiciais a saúde humana. Este cálculo estimado é possível, levando em conta que para cada 0,96 m3 de óleo consumido na termelétrica, 3,34 toneladas de CO2 são produzidos, segundo a Agência Internacional de Energia. Já para a termelétrica Suape II, que tem mais de 70% das obras construídas, infelizmente também no município do Cabo, a emissão anual desta instalação será de pelo menos 2 milhões de toneladas de CO2. Portanto no município vizinho a Recife, no Cabo, estas duas usinas em funcionamento emitirão em torno de 10 milhões de toneladas de CO2, pouco menos de 1 milhão de toneladas mensalmente, e pouco mais de 30.000 toneladas por dia. Será que é este o “desenvolvimento” desejado pelos habitantes do Cabo e de Pernambuco?
Este tipo de instalação industrial que para produzir eletricidade queima óleo, semelhante ao utilizado para movimentar navios, esta tendo enormes dificuldades em conseguir se instalar no sul/sudeste do país, devido às dificuldades impostas para obterem as licenças ambientais, necessárias para tal empreendimento. Acabam vindo para nossa região, pois aqui é conhecida a frouxidão dos órgãos estaduais responsáveis pelo controle, fiscalização ambiental, conservação e recuperação dos recursos naturais, tais como a Agência Pernambucana de Meio Ambiente – CPRH, ligada a recém criada Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade.Fica mais uma vez demonstrado que em Pernambuco o crescimento econômico não combina com preservação ambiental. O atual governo do estado dá sinais claros de sua total falta de compromisso com as questões ambientais e com as gerações futuras, que sem dúvida é o maior desafio atual de nossa civilização.Enquanto aqui se perpetua um modelo de crescimento econômico predatório, insustentável, alicerçado no uso de combustíveis fósseis, inimigo número 1 e responsável maior pela emissão dos gases de efeito estufa, o mundo discute como acelerar o uso de fontes renováveis de energia (solar, eólica, biomassa, energia dos oceanos) para atender a sua demanda energética.com menor agressão ambiental.ENVIADO POR JULIO FERREIRA/RECIFE-PE - tela:leger

terça-feira, 13 de setembro de 2011

ADRIANA MANARELLI


Mosaico
(Adriana Manarelli)

Cara pintada —
Escassez —
Plumagem de vísceras:
Insignificâncias
Devoram-me.
Lampejos
Chafurdam em meus rabiscos
Ladino plano de retratos.
Festa do tabernáculo,
Minha libertação.

Indolente, pronta para entorpecer,
Anestesiada
Acomodando a fumaça.
Aranha tecendo
Tesselas medulares,
Nó cego,
molas,
Engrenagens.

Vírus de folhas,
Atrito
De matizes
Luxúria, luxúria descambando
Detritos: conchas e vidros
O estranho-íntimo e seus relevos e contornos.

24 - 25 / 08/ 2011 tela:monet

POLÍTICA


ESTADÃO ONLINE - SP

NA CRISTA DO MENSALÃO

Enquanto o prazo para o Supremo Tribunal Federal (STF) julgar os quadrilheiros do mensalão se afunila e a sociedade exige resposta, Marcos Valério, que é um dos réus abandonados pelo PT, insiste que Lula foi o maior beneficiado dessa corrupção ocorrida em seu governo e que também deveria ser investigado. O que não deixa de ter razão. Já José Dirceu, Delúbio Soares e muitos outros camaradas do petismo que participaram ativamente dos desvios de recursos públicos do citado episódio não colocam a boca no mundo, como o Valério faz, porque o partido lhes dá aconchego e livre trânsito para se candidatarem a novos pleitos e negociatas, como é o caso cristalino do Zé... Essas passeatas contra a corrupção que ocorreram em 7 de Setembro deveriam ter endereço certo, como o "fora Lula", porque ele foi e continua sendo o pai dessa esbórnia!

Paulo Panossian paulopanossian@hotmail.com São Carlos