terça-feira, 18 de outubro de 2011
CLEVANE PESSOA

Haikais de Haruko (*)
Sol em Esplendor:
Ouro cobre uma terra seca
Inútil beleza ...
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Destruidora Chuva ... Chiva ...
-na terra, VORAZES Bocas,
bebem, armazenam.
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Neve em muitos xales
abaixo do zero, graus
registram-artistas.
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Plenilúneo-mel
derrama-se sobre a Terra.
Poetas-Acordem!
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Artista Invisível
colore uma floração
-eclode primavera ...
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No ar, frutas maduras
perfumam o novo outono
Abelhas celebram.
<<**>>
Clevane Pessoa de Araújo Lopes
Haruko: Primavera em japonês, heterônomo com o qual assino meus haicais.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
CARLOS LÚCIO GONTIJO
O poder dos “homens-Zeus”
Carlos Lúcio Gontijo
Os que sabem de nossos defeitos e continuam nos amando são apenas os familiares e os amigos verdadeiros, pois, na imensa maioria das vezes, os tão-somente “conhecidos” não passam de utilitários, ou seja, se mantêm por perto à medida que tiram alguma vantagem da convivência. Infelizmente, a conduta humana, seja do ponto de vista social, político ou psicológico, permanece mais que nunca guiada pelo ganho material, com forte predominância do complexo de Zeus.
Explicando ao leitor, elucidamos que Zeus (também conhecido como Júpiter) era tido como um deus supremo nas mitologias romana e grega, detendo o poder de lançar raios, dissipar nuvens e fazer chover. Talvez, aí resida a origem dos mandachuvas que regem a República Federativa brasileira como se entronizados em sistema imperial ou ditatorial. Os “homens-Zeus” são, em síntese comportamental, aqueles que querem, ao mesmo tempo, possuir a vontade e o arbítrio, sujeitos que são a explosões coléricas, se nos apresentando hábeis em matéria de fazer alianças, galanteadores e amantes contumazes, agindo como se as pessoas não passassem de peças expostas num grande tabuleiro de xadrez – o mundo.
São os “homens-Zeus” que se encontram no comando dos destinos brasileiros há mais de 500 anos, marcados pela desigualdade e pela escravidão introduzidas pelos colonizadores e que se transformaram em práticas habituais no campo e na cidade, uma vez que muitos senhores do capital ou patrões ainda tomam os baixos salários e a escravização como sinônimo de bem exercer liderança ou chefia. Nossa falta de memória talvez tenha raiz na facilidade com que desfazemos laços e jogamos no lixão do passado ações “radioativas” que possuem o poder de contaminar nossa infraestrutura social por anos a fio.
Ninguém, ou pouca gente, se lembra de que a prática da escravidão no campo tornou-se ainda mais rotineira a partir de 1964, quando os sucessivos governos militares, através da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), direcionou volumosos recursos para as regiões Centro-Oeste e Amazônia. Altas quantias de dinheiro, somadas aos incentivos fiscais, atraíram para a zona rural grandes grupos empresariais de capital financeiro e industrial daquele tempo, ampliando a gravidade da concentração de terras, ao possibilitar a formação de latifúndios de até 150 mil hectares.
Para que bem possa ser detectada a dimensão da importância assumida por aquela decisão dos “homens-Zeus” da época – então trajando amedalhados e reluzentes uniformes verdes-oliva –, recordamos aos nossos casuais leitores que foi viabilizada a inserção entre os novos donos de terra do Bradesco, do grupo Atlântica-Boavista, do Bamerindus, do Econômico e da Volkswagen, que de uma hora para outra foram arrebatados por uma incontida vocação agrária, germinada sob o privilégio de uma fertilizadora liberação de verbas públicas, em que a quantidade de recursos dependia do tamanho do imóvel: assim, a ditadura militar financiava de forma desabrida tanto o latifúndio quanto a exploração dos trabalhadores rurais.
É por essas e outras que o povo brasileiro deve prestar muita atenção nos que comentam sobre política nos veículos de comunicação, pois em alguns casos os tais analistas cometem o desplante de ponderar dentro da ótica utilitária, avaliando os governos segundo os benefícios que proporcionaram a eles mesmos ou ao grupo a que achavam ligados em determinada ocasião, sem qualquer compromisso social ou visão do todo da nação brasileira, que precisa libertar-se dos “homens-Zeus” que a governam através de planos econômicos estapafúrdios, reinando sobre a realidade refletida por águas turvas, fétidas e rasas.
Os “homens-Zeus” são os mesmos que tomam o investimento no social como um desperdício de recursos públicos, que não aceitam ser governados por político nascido fora de berço oligárquico de maciço ouro capitalista, que protestam contra o programa bolsa-família, que esbravejam contra a abertura de espaços para o acesso de gente pobre ao ensino universitário, que pregam a completa privatização do atendimento médico-hospitalar, enfim tudo o que inconfessavelmente almejam é que o povo exploda, sob a ação de seus raios desprovidos de sentimento coletivo e amor ao próximo.
Carlos Lúcio Gontijo
Poeta, escritor e jornalista
www.carlosluciogontijo.jor.br
VIVIANE MOSÉ

Artigo - A fragmentação do ensino
A modernidade nos deixou como herança um enorme desenvolvimento tecnológico, possivelmente em função do investimento tecnicista dirigido aos alunos que apresentavam alto desempenho, mas nos deixou também um absurdo caos social, que deve resultar, entre outras coisas, do descaso com relação aos distraídos, desobedientes, impulsivos, mal vestidos.
O sonho do mundo moderno terminou por desabar sobre nossas cabeças, em forma de violência, aquecimento global, fome. A sociedade moderna, com seus projetos de futuro, acabou não beneficiando de fato ninguém, e desmorona em conseqüência de sua própria exaustão: diante da violência em grande escala e da iminência de desastres ecológicos, todos somos iguais.
Mas o simples fracasso deste modelo moderno de sociedade, que nos prometeu um futuro ordenado pela ciência, não significa que resultará uma sociedade menos desigual e mais justa. Mas, como a tecnologia produziu rachaduras irreversíveis no modo como a sociedade se organizava, uma brecha sem dúvida se abriu, um ponto de vazão, capaz de fazer ruir relações e conceitos opressivos, permitindo uma nova configuração de forças, e gerando novos acordos. Mas, para isso, precisamos ter coragem de rever valores e modelos, e o mais difícil talvez seja encarar o quanto obsoletos estão nossos saberes. Precisamos rever o modo como estruturamos nosso conhecimento, nosso pensamento, nossa educação.
É lugar comum, em nossos dias, apontar a educação como a saída para os impasses que vivemos. Mas será que a educação pode mesmo dar conta desta enorme expectativa? Segundo o cientista da educação Rui Canário, da Universidade de Lisboa, a imaturidade política e social que nos caracteriza é proporcional ao grau de escolarização de nossa sociedade. Quanto mais uma sociedade se escolariza, quanto mais coloca suas crianças na escola, mais esta sociedade produz imaturos políticos e sociais, e os responsáveis por isso são, entre outras coisas, a excessiva fragmentação dos saberes e o isolamento da escola.
Influenciada, por um lado, pela industrialização que chegava, e, por outro, pelo regime militar que passou a vigorar no Brasil, nossa escola foi se estruturando como uma linha de montagem, um modo de produção que fragmentou o trabalho humano, tendo em vista o aumento da produtividade. A hiper-especialidade, o ensino voltado ao “científico”, movido pela euforia tecnicista, as inúmeras aulas de 50 minutos, sem conexão entre si, sem contexto ─ nos levaram a uma sociedade que desaprendeu o valor do todo, do global, do complexo.
E nos tornamos especialistas cada vez mais fragmentados, desvinculados das grandes questões humanas, sociais, planetárias. E vamos vivendo acoplados a uma parcela tão pequena da realidade que chegamos a esquecer quem somos, o que buscamos. Se, por um lado, a fragmentação do ensino respondia à necessidade de produzir uma educação “em massa”, por outro, atendia à fundamentação ideológica do novo regime, avesso à reflexão e à crítica, como mostram as denominações que ainda hoje usamos: grade curricular, disciplina, prova.
Com tudo isso, fomos formando pessoas cada vez mais segmentadas, incapazes de responder às grandes questões, e que hoje vivem em um mundo que as obriga a dar conta de temas cada vez mais complexos, como o destino do planeta, a internet, a globalização.
“Há uma inadequação cada vez mais ampla, profunda e grave entre os saberes separados, fragmentados, compartimentados entre disciplinas, e, por outro, realidades ou problemas cada vez mais transversais, multidimensionais, transnacionais, globais, planetários.”
Edgard Morin
Assistimos ao nascimento de um novo modelo de mundo, sem grandes valores fixos e eixos centrais, mas fundado em diversas conexões, formando uma imensa rede sem centro, composta de uma infinidade de jogos e saberes, que se aglutinam e se afastam, que se estendem. Na era tecnológica, a verdade, a certeza, a estabilidade, o princípio, a causa, tão caras à ciência, se tornaram sinônimo de nada, perderam o valor, mas, se estes grandes valores, que tanto já nos oprimiram, desabaram, talvez a urgência seja exatamente de um novo olhar, um novo posicionamento com relação ao mundo, nascido de uma nova correlação de forças, de novas avaliações e novos valores. E isto exige pessoas inteiras, capazes de olhar o mundo, as situações, como um todo, ao mesmo tempo em que são capazes de neles se localizar de forma singular, própria.
É muito difícil falar sobre este universo que nasce, tentar imaginar qual será a estrutura gramatical capaz de dar conta destes infinitos discursos. Mas precisamos admitir que os meios não são mais os mesmos, hoje vivemos em rede. A palavra mais pronunciada é, provavelmente, conexão, ou link. Mas nós, professores, alunos, pais, continuamos apertando botões na linha de montagem de uma fábrica em extinção. Torna-se, portanto, urgente reconstruir o modo como estruturamos nossos saberes; a escola, começando pela universidade, precisa rever seus modelos. E, para isto, é imprescindível enfrentar o problema da fragmentação dos saberes, de uma escola desvinculada do contexto social, ambiental, cultural, político.
A escola deve ser um corpo vivo. E deve envolver também os espaços públicos e as festividades, deve ir aos concertos, as exposições de arte, aos museus e bibliotecas, aos centros de pesquisa, as reservas ambientais, enfim, a escola deve ir à cidade. E a cidade deve se preparar para recebê-las, construindo espaços de convivência e de relação, e assumindo seu papel no processo educativo, ao invés de lavar as mãos, enquanto isola jovens e crianças em escolas, que mais se parecem a presídios de alunos. E espera cidadania quando oferece exclusão.
Torna-se urgente retomarmos a difícil complexidade que é viver, pensar, criar, conhecer; todas as coisas se relacionam, não há nada realmente isolado, cada gesto produz desdobramentos incalculáveis; um saber, uma escola, uma pessoa não existe sem um contexto: talvez este seja o aprendizado social, a maturidade política que precisamos, para impedir que as coisas, de uma vez por todas, implodam.
Viviane Mosé
Filósofa
ALAORPOETA
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
HOMENAGEM A RENATA PALLOTTINI

HOMENAGEM A RENATA PALLOTTINI - No dia 20 de outubro, na Casa das Rosas, a partir das 19h00, poetas, artistas e amigos prestarão homenagem aos 80 anos de Renata Pallottini. Poeta, dramaturga, ensaísta, roteirista e tradutora, Renata já tem mais de 20 livros publicados e mais de 11 peças teatrais. E apesar de muito dedicada à poesia, também exerceu intensa atividade em dramaturgia: teve obras encenadas por criadores assíduos da cena nacional, como Silnei Siqueira, Ademar Guerra, José Rubens Siqueira, Márcia Abujamra e Gabriel Villela. Também já emprestou seu talento criador --e poético-- para algumas emissoras de televisão. Entre esses trabalhos ganharam grande destaque a série Malu Mulher, da rede Globo, e Vila Sésamo, da TV Cultura.
O roteiro dessa festa inclui a leitura de poemas da homenageada, feita por poetas de várias gerações e alguns atores; a participação da cantora lírica Marcela Alves; a apresentação de cena do espetáculo Nos Campos de Piratininga (peça criada em parceria de Renata com Graça Berman); vídeo com imagens pouco conhecidas e divulgadas da Renata assim como trechos de poemas; e a música do premiado violonista e impecável artista que é Daniel Murray.
Estarão na Casa das Rosas na próxima quinta-feira, dia 20, lendo poemas de Renata Pallottini, os atores Cléo Ventura, Graça Berman e Paulo Hesse e os poetas Álvaro Alves de Faria, Beth Brait Alvim , Carlos Felipe Moisés, Celso de Alencar, Dalila Teles Veras, Donizete Galvão, Edson Bueno de Camargo, Eunice Arruda, Frederico Barbosa, José Geraldo Neres, Luiz Roberto Guedes, Neuzza Pinheiro, Raquel Naveira, Roberto Bicelli, Rubens Jardim, Ruy Proença e Thereza Christina Rocque da Motta.
O evento de comemoração é gratuito e aberto para os admiradoress e amigos.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
ANIVERSÁRIO DE TOM ZÉ

Salve amigo Everi.
Concordo integralmente com sua crônica e acho mesmo que a música brasileira está mais besta que nunca.
Viva todos os dias o Tom Maravilhosamente Zé, fonte de água com gás fresca no deserto do mercado fonográfico. Prova disso é o seu último trabalho, DANÇ-EH-SÁ – DANÇA DOS HERDEIROS DO SACRIFÍCIO, onde Tom Zé, sem dizer uma única palavra inteligível e se valendo de ruídos e onomatopéias, esculhamba geral e passa um pito, com carinho como convém, em todo o mundo que fica correndo atrás dessas merdas melódicas que estão por aí mas emissoras do país.
É por isso que em uma de minhas músicas, chamada Tom Zé+, com muita humildade e em homenagem a esse gênio eu digo:
Hoje eu me sinto
Simplesmente demais...
Muito a fim de dançar, de cantar, de pular, de sorrir, de viver;
O que está acontecendo, com aquele velho jeito de ser?
Sinto, cumpadi se espanto você, cê não sabe o porque?
É porque que o fim emudece, o fim não sonoriza.
É porque o fim paralisa, enrijece e na boca,
Só um Ah..., se eu pudesse...
Então vê se me entende,
Quando sorrindo lhe digo o porque,
Se eu me sinto muito a fim, até...
É porqueporque é possível Tom Zé;
Se eu me sinto muito a fim, até...
É porqueporque é possível ser Zé;
Se eu me sinto muito a fim, até...
É porqueporque é possível viver
E até mais...
Abraços.
Mauro Rico.
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