sábado, 14 de julho de 2012

CINEMA


PRESSUPOSTOS PARA ANÁLISES DE TRÊS FILMES BRASILEIROS

Guido Bilharinho

Filmografias Complementares

                   Na diretriz de preocupação (e ocupação) com o relacionamento humano, especificamente, o amoroso, Válter Hugo Curi (São Paulo/SP, 1929-2003), prossegue em seu segundo filme, Estranho Encontro (1958), a vasta filmografia (para os padrões brasileiros), que irá desenvolver pelas décadas seguintes.
                   Com pertinácia, insistência e coerência, Curi realiza até 1998 mais de 20 (vinte) filmes de qualidades desiguais, porém, em que avulta Noite Vazia (1964).
                   Por sinal, paralelamente a ele, também estreante nos anos 50, mas, pautando obra em registro diverso, mas não oposto, como equivocadamente sempre se colocou no quadro de exacerbação ideológica que caracterizou as décadas do pós-guerra, Nélson Pereira dos Santos também irá construir considerável filmografia.
                   Curi, diferentemente de Nélson, não se dedica à elaboração de conflitos interclasses e concernentes à condição e situação sócio-econômica de suas personagens.
                   Opta por fixar-lhes o comportamento emocional e/ou o relacionamento amoroso.
                   O ser humano é composto, como se sabe, de feixe de emoções, condicionantes, pulsões e compulsões variadas, bipartindo-se entre condição e situação econômico-social (luta pela sobrevivência em quadro infra-estrutural organizado em sociedade dividida em classes) e conformação intelecto-subjetiva, complexamente formada.
                   Como dito, Nélson preocupa-se principalmente com aquela e Curi com esta, complementando-se e não se opondo, pois.
                   Em Estranho Encontro, com argumento e roteiro também seus, Curi aplica, em trama inteligentemente construída, tratamento formal requintado, em que a consciência estética e o cuidado elaborativo patenteiam-se desde as cenas iniciais, que, mutatis mutandis, evocam às do filme A Morte Num Beijo (Kiss Me Deadly, EE.UU., 1955), de Robert Aldrich.

Julgamento da Obra de Arte

                   A análise e o julgamento da obra de arte não pressupõem sua contextualização espácio-temporal e o mais que isso implica de condicionantes e relativizações.
                   Tais procedimentos críticos não se balizam (e nem se limitam) por esses fatores, bastando-se a si mesmos com fulcro na obra, no resultado obtido pelo autor e advindo de todo o processo elaborativo.
                   Muito menos orienta-se esse exame por parâmetros ideológicos ou de qualquer outra natureza que não seja, apenas e unicamente, o estético e, na ficção, também a propriedade do enfoque da natureza humana.
                   Nesse mecanismo intelectual não interessam nem mesmo (com igual ou mais razão) origem, motivações e objetivos que direcionaram e condicionaram o autor.
                   Todos esses fatores são, como se sabe, exteriores e alheios à arte.
                   À evidência que se pode analisar e julgar a produção artística sob qualquer outro ponto de vista, procurando observar, por exemplo, se ela atingiu as finalidades artísticas (se existirem) que moveram o autor. Contudo, tal empreendimento nada tem a ver com julgamento de seu valor como produto resultante da atividade intelectual-artística.
                   A preceituação ora expendida visa fixar (ou lembrar) questões óbvias na concepção moderna da arte e da crítica da arte.
                   Aplica-se, pois, urbe et orbe, indistintamente.
                   Por isso, não vem à baila, a não ser como mera curiosidade, o papel que a obra de arte representou em seu tempo no contexto ideológico-político. Aliás, tal circunstância só serve para obnubilar análises e empanar julgamentos, obscurecendo e comprometendo a isenção e a exação que devem presidir o mecanismo crítico avaliativo.
                   Ao se comentar o filme Ravina (1958), de Rubem Biáfora (São Paulo/SP, 1922-1996), com mais razão ainda devem ser afastadas quaisquer conotações trazidas à memória pela significativa militância crítica e perfilhada tendência criativa do cineasta.
                   Interessa, pois e apenas, o resultado, ou seja, a obra que legou.
                   Ravina é o marco inaugural dessa filmografia, composta ainda de O Quarto (1967) e de A Casa das Tentações (1975), um filme, portanto, por década.

Verdade e Arte

                   Entre os intelectuais de esquerda lavrou – e ainda lavra – o equívoco de subordinar a expressão artística à mensagem social, política e filosófica. A obra, em consequência, não passaria, nesses casos, de veículo ou instrumental ideológico, sacrificando-se (quando qualificado o autor) ou não atingindo (na hipótese de incompetência) o nível artístico.
                   Contudo, não é a escolha do tema ou a orientação que se lhe imprime os responsáveis por esse descaminho ou frustração.
                   Ao contrário do que geralmente se pensa e se propala, o assunto e sua diretriz são neutros do ponto de vista artístico, independendo do posicionamento político-ideológico e social do autor, não importando sua condição, posição, atitude ou conduta e correspondente objetivo religioso, social, político e ideológico. Quaisquer sejam, o que conta e vai ser aferido é o valor estético da realização, isto é, conforme Hegel, sua concepção e expressão, traduzidas em profundidade e propriedade de conteúdo e criatividade formal.
                   Por isso, pode-se ter grande poema tematizando simples árvore de beira da estrada e poema sem nenhum valor abordando o destino da humanidade.
                   O caso do filme Os Fuzis (1963), de Rui Guerra (Maputo/Moçambique, 1931-), é exemplar de como se reúnem e são sintetizadas intenção engajada e forma artística, sem subordinação desta àquela, como convém.
                   À evidência que, além disso, é indispensável que o autor seja artista, tenha talento, consciência e informação estética acompanhados de persistente exercício elaborativo.
                   Os Fuzis alia visão, posicionamento e crítica social com alto grau de realização cinematográfica, na utilização adequada e vigorosa dos meios expressionais da arte, do que decorre forte conteúdo humano e social expresso em apropriada construção formal.
(do livro O Cinema Brasileiro Nos Anos 50 e 60, editado pelo Instituto Triangulino de Cultura em 2009-www.institutotriangulino.wordpress.com)
Foto anexa de cena de Os Fuzis.
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Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba e editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000, sendo ainda autor de livros de literatura, cinema, história do Brasil e regional.
Publicação autorizada pelo autor)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

LUIZ ROSEMBERG FILHO









 “ O espetáculo é o capital num grau tal de acumulação que se torna imagem.”

                              GUY DEBORD

       “SOBRE O CONCEITO DE ESPETÁCULO”

        Na epistemologia, saber e poder manusear, poder compreender, poder dispor. O saber está vinculado ao mundo prático, o qual não é somente condição de possibilidade para qualquer enunciado, mas também o lugar efetivo onde a enunciação pode ser produzida. Portanto, a investigação do saber como conceito epistêmico remete ao prático pois o saber revela-se em instância que vincula o homem ao mundo. Daí não aceitarmos o uso sensacionalista, massificador, retrógrado, tacanho – sendo o espetáculo a continuação da velha forma de se fazer política e cultura.
        E mesmo só sendo uma indução econômica e militar ao fascismo, sabe bem como cristalizar-se como mercadoria desejada, no lusco-fusco das imagens. O espetáculo é soberano. Inexpressivo, mas potente ideológicamente. Infinito como recomeços, age nos Partidos e meios de comunicação. Comovente se necessário, é uma expressão patética da indiferença pelo saber. Preexistente na política das guerras, e trapaceador na comunicação de massa sua glória é ser um culto ao idiotismo de “celebridades” fabricadas pelo capital acumulado.
        Digamos que a máquina de guerra do espetáculo age politicamente do cinema à TV, passando pela publicidade e mesmo pela fotografia. Poderoso e “rico” se afirma também como poder, atuando na política como necessário, para impor os seus abortos e Partidos vergonhosos, em pleno século XXI. E tal soma de irrealidades nos remete a quê? Só ao abismo do vazio como afirmação do espetáculo pobre e empobrecedor. O injustificável tornando-se razão soberana. O inexpressivo como interioridade do investimento. E, é só o que justifica o espetáculo: o dinheiro! Mas não é pouco? E o triunfo da técnica sobre as idéias, é o quê?
        Os ideólogos do banal, dizem que é a cristalização do progresso como obra de arte. Como pode lixo ser transformado em arte? Automatizado, o capitalismo volta a se transformar em fascismo, interiorizando a tacanhez truculenta da classe dominante. Digamos que o espetáculo faz parte dos discursos vazios apresentados ou defendidos, pelos meios de comunicação. Servindo para amedrontar e impor à ideologia dominante. Que com a globalização, passou a ser ostentação de uma infinidade de idiotas, e que no jogo da vida, empenharam-se a só fazer “sucesso”. E o que é o sucesso na ortodoxia do dinheiro? Talvez, uma reprodução de fascismos como base de formulações conservadoras necessárias à insalubridade das idéias. 
        E, é onde reina o espetáculo: na imobilidade forçada do outro, a consumir seu próprio lixo devidamente globalizado. Como afirma o sociólogo Zygmunt Bauman: “ Como todas as outras sociedades, a sociedade pós-moderna de consumo é uma sociedade estratificada.” Não havendo por tanto, espaços para o sonho, o prazer e à criação. Quão pesado nos é, viver num tempo de ignorâncias predatórias! Ora, que significado tem esse lastro anti-civilizatório da barbárie como espetáculo? Como se pode lucrar com a industrialização do horror? À luz dessas questões é que compartilhamos da superação do “complexo econômico colonial” arcaizante e ultra-egoístico, para reconstruirmos um saber inovador vinculado à nossa verdadeira história da luta de classes. Que se vá pensar e fazer o espetáculo em Hollywood, que ao invés de desaparecer segue privilegiando tiranias e lacaios vindos da publicidade e da TV.
        Digamos que a função primeira do espetáculo se afirma na substituição das idéias, e se realizando na erosão do saber dando primazia ao vazio ideológico do nosso tempo. E, ao reduzir tudo ao silêncio, torna-se absoluto como postura. E, é preciso repetir sempre que a falsidade reina em nosso sistema político e cultural. Não só como fraude, mas como verdade única do capital. E “como o melhor não se ilumina com palavras”, é preciso voltar a privilegiar no cinema, o movimento da linguagem que atua silenciosa na história. Ou seja, saber como revelar “o silêncio na palavra”. O silêncio-linguagem, articulado com um novo pensamento. É preciso reconhecer como falta, um pensamento mais justo para as imagens.
        Sem mudanças ficaremos com “Avatares”, “Cidades de Deus”, “Tropas de Elite”, “Se Eu Fosse Você XIV”, “Cilada.com”... e outras besteiras. E mais: em nosso país, digamos que o espetáculo é a única herança da guerra, reminiscente excedente do fascismo. E sua extensão vai da lucrativa indústria bélica, à velocidade da informação moderna marcada pelo progresso mediado pela desumanização da comunicação, tipo os programas religiosos na TV. Todos, verdadeiros lixo! Ora, como materializar a transformação desse mundo? Como dar significação à poesia? Que função tem a beleza? Seria possível uma desmaterialização do horror permanente?
        Ora, se o planeta não é nada em relação as dimensões do espaço, porque seríamos alguma coisa em relação ao espaço terrestre? Mas,insistimos! Queremos respostas para tudo. Como se tudo pudesse ser respondido nessa homogeneização medíocre em que se vive vendo a TV, e votando em Partidos-espetáculos descritos falsamente pela mídia como sendo diferentes entre eles. Na verdade, o espetáculo é um espaço artificial convenientíssimo as tantas manipulações do poder, a remodelar e ordenar fascismos.
        Ousaríamos até dizer que invasão e espetáculo estão intimamente ligados no desenlace fatal rumo à barbárie. Procurar suas origens, pará-se no capita através do qual tudo se justifica: Malafaias, Datenas, Ratinhos, The Partie, Amaury Jr... Ora se tudo é mercadoria, tudo tem seu preço. Quanto vale uma novelinha na TV, um time de futebol ou uma campanha eleitoral? Alguma diferença? Tudo e todos clichês visíveis de um Estado militarizado, a defender a burrice aliada a mesmice. Mas é justamente onde atua o espetáculo: numa espécie escancarada de ressurreição de fascismos. E que, o inchaço de inverdades é a supremacia do espetáculo.  E se é verdade que “o caos é o sagrado em nós”, como afirmava Heidegger, como fazer da linguagem uma rica experiência poética, permanente?
        Entre escombros e ruínas a história vai sendo vivida. Mas... poderia ser diferente? Respeitosamente falava o escritor Lima Barreto: “Neste país viçoso a mania das letras é perigosa e fatal. Quem sabe sintaxe aqui é como quem tem lepra. Cura-se! Isto é um país de cretinos! convença-se... letras, só as de câmbio...” Enfim, status aqui é só o da mediocridade sempre espetacularizada. Mas...é uma espécie de controle perverso do saber. O vazio opaco que antecede a morte. Uma total falta de lucidez a desmantelar resistências. Fantoches brincando de representar como se aqui fosse Hollywood, com a TV usando e abusando da sua não-expressividade, num reality-show formatando o espectador num pós-graduado em malandragem e alienação, vendido numa falsa Idade de Ouro. 
        Já o cinema, como sendo a nova indústria do cosmético, se afunda no seu próprio lodaçal. Conceito bastante interessante para um possível Oscar. Mas com isso, perdeu-se a singularidade de um cinema mais intenso e criativo a serviço da imaginação, da linguagem e da poesia como faziam Humberto Mauro, Glauber Rocha, Fernando Campos, Joaquim Pedro, Rogério Sganzerla... E como ainda fazem a duras penas Tonacci, Sergio Santeiro, Ana Carolina, Eduardo Coutinho, Fabio Carvalho, Isabel Lacerda, Ricardo Miranda... e alguns poucos mais. Já os afoitos, subservientes e oportunistas migraram para a TV, e seus muitos clichês. Não fazem mais cinema, e sim novelões e novelinhas medíocres! Asnos que pararam num tempo constrangedor e estéril, a consumir e produzir um aperfeiçoamento do coco como mercadoria do espetáculo. Pena... _____________________________________
                    Luiz Rosemberg Filho/Rô
                  Janeiro de 2011 a julho 2012 

VAGNER RICCIARDI







SOMOS TODOS MENSALEIROS
Para os diretores da Fifa, todos os brasileiros são mensaleiros. Que fama injusta! Existem muitos brasileiros honrados e envergonhados com toda essa imundice política que os jornais mostram todos os dias. Eu nunca votei no Ricardo Teixeira nem no João Havelange, nem nos atuais governantes, tampouco concordo com a construção dos estádios de futebol para a Copa de 2012 com custos absurdos em regiões carentes de todos os serviços públicos. Portanto, não concordo com esse rótulo de corrupto passivo ou alienado político. Sou brasileiro, mas não sou corrupto.- Vagner Ricciardi 
TELA: salvador dalí

quinta-feira, 12 de julho de 2012

IZABEL AVALLONE

LOBOS SÃO POUPADOS
Toda a sorte do denunciado está diretamente ligada à escolha de um bom advogado. Se tivesse Demóstenes Torres recorrido aos trabalhos do poderoso Márcio Thomaz Bastos, não estaria passando por todo esse constrangimento. De que adiantará cassar o senador Demóstenes, se o maior responsável por toda a corrupção é o sr. Carlos Cachoeira, flagrado em diversas conversas com todo tipo de autoridade e que logo mais estará livre, pelas mãos de seu competente advogado? E mais: se o papel da CPI é cortar a cabeça de um dos seus, o que dizer dos que hoje votam pela cassação do senador e foram perdoados por seus crimes? Teriam esses senhores isenção para condenar o seu próximo? O cidadão que é bem informado sabe que tudo não passa de um teatro onde se sacrifica a ovelha enquanto os lobos são poupados. Brasil, um país de tolos! Izabel Avallone
TELA: rene magritte

TANIA TAVARES

   Insultos

                       Alô CUT, o processo  de julgamento só será político se os mensaleiros forem absolvidos, afinal nove entre onze Ministro do STF foram nomeados pelo Lula!!!
Mas eles não se deixam levar por intimidações...
tania tavares 

TELA: magritte

PEDRO DU BOIS








PODER

Ávido de poder reclamo a sorte
que me cabe no negócio: o amor
tolhe os movimentos. O corpo
cede à angústia de estar vivo. A sorte
é instante acordado. O poder trafega
a ilusão da luz apagada. A lanterna
cessa a sombra imaginada. O destino
presente na ponta dos dedos. Águas
sôfregas rasgam a terra e depositam
mensagens de descobrimento.

Aviso em praça pública: o poder
combina a estática com o movimento
em falso do adormecido.
 
(Pedro Du Bois, inédito)
TELA: salvador dalí