segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

RAQUEL NAVEIRA









MANOEL DE BARROS: O ENCONTRO, A CARTA E O FILME
                                                                            Raquel Naveira

“Não seria capaz de reconhecer um rouxinol...
 Será um pássaro roxo?
 Terá na garganta um sol?
                           Raquel Naveira

SABIÁ COM TREVAS IX

“O poema é antes de tudo um inutensílio.”
                           Manoel de Barros

Aos vinte anos, comecei a publicar meus poemas no jornal Correio do Estado de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Com coragem, entrei na sala do Professor Barbosa, proprietário do jornal, mostrei-lhe alguns poemas datilografados, li-os em voz alta e pedi para que os publicasse. Daquele dia em diante, ininterruptamente, por trinta anos, passei a levar o pão da poesia para o meu povo. Quando publiquei o primeiro livro de poesias, intitulado Via Sacra, dez anos depois, em1981, já havia formado um público leitor.
Um dos primeiros poemas que apareceram no jornal foi este “Campestre”:

Há um grilo que brilha
Agarrado à folha
E uma estrela que canta
Presa na mata.

Há um orvalho que escorre
E morre na grama.
Há uma rosa que perfuma
E penetra na cama.

Há pessoas que falam,
Ao redor de luzes esparsas,
As faces imersas na cor do fogo,
Um jogo de cartas...

Há louças recostadas na pedra,
Plantas amontoadas nas janelas,
Panelas mágicas nas paredes,
Estranhos doces em gamelas...

Há silêncios que preparam auroras,
Preces que desfiam as horas,
Medos de bichos e caaporas.

Há tanta paz.
Tanta paz onde moras.

No mesmo dia de sua publicação, recebi o telefonema da professora Glorinha, mestra de Literatura e de vida, informando-me com entusiasmo que o poeta Manoel de Barros lera o poema, gostara muito e vaticinara: “_ Há uma poeta entre nós.” Marcamos então um encontro na sua antiga casa, da rua Rui Barbosa. Lá estava eu, com alguns poemas numa pasta, trêmula, aguardando-o na sala com cadeiras de palhinha. Ele me levou ao escritório, cheio de livros, cadernetas, um quadro de Picasso. Falou que leria os poemas, mas seria duro, cortaria, criticaria, usaria a lima, atingiria com espada os ossos até a medula das palavras. A certa altura da conversa, chorei, chorei muitíssimo, porque a paixão pelo ofício, pela chama azul e vermelha da Poesia me consumia, me queimava.
Alguns dias depois, ele me enviou uma carta generosa e paciente, escrita a lápis, com sua letrinha miúda. Guardo essa carta, verdadeiro tratado sobre poética, com imenso carinho. O poeta maduro e sofrido, compartilhando seu conhecimento intuitivo, existencial e de poesia com a  jovem aprendiz. Dizia a carta:

“Raquel,

Conselhos não vou dar. Nem a poetas se dá isso. Poeta é sempre nuvem. Em você subjaz a sensibilidade, o resto você desbrava. Ou então ela, a poesia, é que a vai desbravar.
Achei desiguais seus poemas. Em alguns você consegue a transfiguração da realidade. Cito a “Feira” da qual já falamos. Talvez isso em você depende da maneira de construir o poema. Veja uma coisa. O poema “Árvore Aberta”. Vou lendo, sem me transportar, (você não me tirou em uma imagem qualquer da realidade), vou lendo encarando a árvore como árvore comum. Ao fim é que notei a imagem que transfigura: o poeta é uma árvore aberta! Lido o poema de novo, já com a imagem transfigurando a árvore-comum para poeta-árvore, daí então a poesia se comunicou.  Há muita coisa sua com essa feitura. É preciso colocar o leitor desde o primeiro verso, se possível, ou desde a primeira estrofe, dentro da supra-realidade. É preciso que se implante a mágica. E mágica, em poesia, você sabe, é com metáfora que a gente implanta. Ou com música. Sei lá, um mistério desses.
Noto ainda que você dá mais importância aos sentimentos do que às palavras. Aos movimentos do coração mais que os da inteligência. Você tem um mundo interior muito bonito e se empolga com ele, esquecendo um pouco o verso, essa unidade rítmica do poema. Sinto que você quer se contar e, muitas vezes, para isso, se derrama quase prosaica.
Eu acho que a gente tem obrigação de escolher as palavras, ou, pelo menos, rejeitar algumas que soam feias. Eu acho a palavra Trago muito feia. Eu não a usaria nunca para título. Bem sei que por um casamento certas palavras feias viram bonitas. Assim, desafiaram uma vez o poeta Manuel Bandeira para embelezar a palavra protonotário (feia em si). Pois o poeta arrumou um poema de ritmo tão bonito e amigo que deu certa aura de simpatia a protonotário.
Eu evitaria alguns lugares-comuns como estes: desejos frustrados; reflexos prateados; alegria de viver; sonhos inatingíveis; estéril deserto; etc. Lugar-comum é esclerose da língua. Poeta tem como função descobrir novas relações para as palavras. Exemplo um. Em vez do surrado luar prateado, o poeta Jorge de Lima inventou o luar salobro. Assim, ele renovou a linguagem, salvando o luar da esclerose. Acho melhor, para a poesia, dizer conspícua borboleta do que brejeira borboleta; melhor brejeiro anacoreta do que conspícuo anacoreta. Coisas assim que ensinam a penetrar no reino das palavras.
Outra coisa. Elemento construtivo do verso é o ritmo. Verso é mesmo uma construção fônica. Cato em você uma frase: “Onde as graves consequências do que se afirma?” Dentro às vezes de um outro contexto poderia até valer, mas ali me pareceu sem força de verso. Sei que não se pode julgar um verso fora do contexto. Ás vezes sua força vem de outras ideias e outros ritmos que estão para trás. Sei de tudo isso. Sei que o que comanda o ritmo de um verso pode ser até uma imagem ou mesmo uma só palavra. Mas me pareceu esse um verso que está sem o ritmo que o possa tornar poético.
Gostei de alguns poemas do livro que achei à altura daquele que me chamou a atenção. O seu mundo interior é fascinante, mas não se empolgue tanto em conta-lo. O fazer poético é que torna o poema durável. Não é seu assunto. Todos os assuntos já foram ditos. Mas eles só ficam na terra se fundados, inventados de novo pela linguagem, transfigurados.
Tirei alguns exemplos de versos, palavras, ao acaso, de seu livrinho. Este é um comentário carrasco. Poderia também  destacar os versos bons, os poemas bons. Fiz uma pequena cruz nos poemas que gosto. Sei que você, com aplicação, com trabalho, penetrando no reino das palavras, dando especial atenção a cada verso- sei que você poderá transformar toda a matéria em boa poesia. Porque são bons, são lindos os sentimentos.
Raquel, na verdade eu não gosto da realidade. E quando alguma coisa me joga fora dela, eu gosto. O Cão sem Plumas é nome de um livro de João Cabral, como você sabe. Só o título já nos põe fora da realidade. Entende-se que no mundo do poeta os cães têm  plumas; mas ele vai falar de um cão sem plumas que é a sua poesia pelada, rigorosa, sem plumagem de adjetivos. Maiakóvski tem um livro chamado A Nuvem de Calças. Logo o título bota a gente fora da realidade. A nuvem dele é um ente de calças com a cabeça nas nuvens. Acho importante a transfiguração da realidade Um dia inventei um alicate cremoso. Coisa absurda, irreal  . Mas trouxe-me uma sensação boa de reconciliação dos meus contrários. As nossas contradições profundas às vezes se reconciliam através de um casamento anômalo entre palavras.
Depois, enfim, ninguém sabe nada sobre poesia. Mas é bom conversar sobre ela. Gosto mais das coisas que eu não entendo. Principalmente gosto daquelas que eu entendo de diversas maneiras. A ambiguidade é que abre o poema para todos os desentendimentos.

Abraço para você e Ademar,

                              Manoel”


Todas essas recordações jorraram aos borbotões na memória, depois de ter assistido ao documentário Só Dez por Cento é Mentira, do cineasta Pedro Cezar. Emocionei-me ao ver as ruas largas de minha cidade, a Avenida do Poeta tingida de pôr-do-sol, as árvores do cerrado em forma de arabescos negros e o casario do Porto de Corumbá, à beira do rio Paraguai, com os muros caiados, cobertos de musgo, que guardam séculos de história e decadência. Emocionei-me ao ver o poeta se entregando ao cineasta e o cineasta se entregando ao poeta. Uma entrega de amor e fina sintonia. O poeta respondendo às perguntas com brilho de inteligência e humor. O cineasta captando cada detalhe, cada palavra, cada gesto, cada objeto como moldura e base da gênese da poesia. As pessoas que dão seus depoimentos sobre o poeta como Bianca Ramoneda, Viviane Mosé, Abílio de Barros, João de Barros, tornam-se personagens de uma história maior: a magia de conviver com o poeta e sua obra. E há os personagens fictícios que se misturam aos reais, com mais realidade ainda: são duplos, máscaras, alteregos, seres fantásticos, capazes de criar inutensílios e guardar águas como o Poeta.
As duas vertentes mais fortes do documentário são: a reflexão sobre arte e a volta à infância. Na arte, a poesia se configura como loucura de palavras, montagem de imagens ilógicas, matéria e poesia retirada do lixo, do monturo, do que a civilização joga fora como inútil. A infância é o lugar marcado pelo êxtase da vida, jogo inocente do que se faz e experimenta. É saudade de um tempo pleno que se renova constantemente em devaneios. É o estado primordial, inaugural, potência e reinvenção. Assim como Drummond, Manoel de Barros é o Menino Antigo.
O documentário tem um grand final, uma chave de ouro que fecha, explica, eleva e confirma o universo do Poeta: um desfile dos personagens e suas referências.
O professor carioca Nicolino Novello escreveu no seu livro Onde andará Cristiano?(Rio de Janeiro: Senai Artes Gráficas, 2007), no ensaio “Manoel e Raquel: sabiá e rouxinol em concerto”, que eu era o rouxinol e Manoel de Barros, o sabiá. Transcrevo trecho:

“Se o sabiá, um pássaro abundante em terras pantaneiras e de um canto característico, parecendo repetitivo como se maturasse seu gorjeio em busca do mais original e poético, cujas várias nuances consegue ultrapassar a identificação e a beleza com seu ambiente, os diferentes cantos de Manoel de Barros também se nutrem numa demorada troca de substâncias para que a poesia rompa os limites do humano e do verossímil. Por outro lado, como um pássaro agregado ao meio, sempre recolhido e cantando em seu arvoredo, que somente daí se ausenta para cantar o ilimitado da memória, da beleza, do imaginário e do real (assim esse pássaro acabou com a tristeza do imperador da China e da margarida triste), o rouxinol de Raquel Naveira vem completar, ao lado de Manoel de Barros, outras vertentes da riqueza poética em Mato Grosso do Sul.”

 Sou rouxinol sim, que canta com um sol na garganta. Manoel de Barros é sabiá com trevas. O filme de Pedro Cezar arrastou-me para o nosso habitat de pássaros e poetas: o firmamento azul, o horizonte de nossa terra e de nossas almas.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

EXPOSIÇÃO


NEUZA LADEIRA

Arrepio de estar viva \ 1970

O tempo que tive em me olhar e onde me encontrava
Foram frestas de luz quando o sol se move
Pisava em areia movediça
Homens soltos e ensanguentados pelo corredor
Ninguém se olhava se falava
Urinava e defecava com uma metralhadora apontada
Com os olhos do soldado pousados sobre mim NL

BRIZOLA

Rodrigo Nunes Ricardo
Brizola era um político, e os políticos estão sempre abertos à fazer alianças amplas para tentarem viabilizar seus projetos. Nesse sentido Brizola aprendeu muito com seu mentor, Getúlio Vargas, que disse certa vez "não saber se tinha inimigos, mas se os tinha com certeza não eram tão inimigos que não pudessem amanhã virar amigos." Brizola fez várias alianças curiosas ao longo de sua carreira, em 1958, por exemplo, teve o apoio, ao mesmo tempo, do PRP de Plínio Salgado e do PCB de Luis Carlos Prestes na disputa pelo Palácio Piratini. Dentro dessa mesma lógica Brizola se aproximou de Lulla, imaginando creio eu poder usar a figura de Lulla para propósitos trabalhistas. Brizola nunca foi amigo de Lulla, e aliás o primeiro encontro de ambos, em 1980, no ABC paulista, terminou de forma ríspida após uma curta troca de palavras. Brizola tentou, por um tempo, ser uma influência sobre Lulla. Brizola sabia que Lulla era ( infelizmente ) muito popular, e Brizola certamente imaginava que, se pudesse talvez influenciar, aconselhar Lulla, essa liderança petista poderia servir à propósitos construtivos. Mas Brizola nunca alimentou ilusões sobre o que representavam Lulla e o PT fora da influência brizolista: basta ver as declarações dadas por ele acerca de Lulla em 1989 e 1994. A última, derradeira tentativa de Brizola de procurar ser uma influência sobre o líder petista se deu em 2002, no segundo turno, e logo Brizola se decepcionou com os rumos tomados por Lulla após a posse. Quem diz que Brizola era "amigo" de Lulla mente, e mente feio!!! Basta ver as declarações dadas por Brizola em 2003 e 2004, como por exemplo a de que o Brasil havia "caído no conto do operário" e seu depoimento dado ao jornalista americano Larry Rhoter, do "The New York Times" no qual acusava Lulla, com todas as letras, de ser alcóolotra. Brizola chegou até mesmo a se reunir com o ex-senador Jorge Bornhausen, para tentar articular uma frente de oposição ao PTralhismo. E tudo isso - faço questão de frisar - aconteceu ANTES da vergonheira do Mensalão, que Brizola não chegou à ver pois faleceu um ano antes desse escândalo vir à público. Imagine o que Brizola não teria dito e feito se tivesse vivido para ver o Mensalão...

Hoje os PTralhas mentem dizendo que Brizola era "amigo" de Lulla. Baseiam essa mentira no fato de que o PDT, hoje, contrariando expressamente a vontade de Brizola em seus dois últimos anos de vida, integra a base do governo. Cinicamente tentam iludir a opinião pública apresentando a postura venal dos atuais líderes do PDT como sendo consoante com a vontade de Brizola. Certamente contam com a memória curta do povo brasileiro. Uma das coisas mais tristes é que, no fim da vida, Brizola viu o rumo que o PDT tomaria após sua morte: ele sofria pressões constantes de seus correligionários para sair da oposição e voltar às boas com o PT. Daí a frase de Brizola sobre o PDT: "minha vontade é fechar esse partido e fundar um movimento de libertação nacional."

domingo, 20 de janeiro de 2013

JANIS JOPLIN






Kozmic Blues-Blues Cósmico
musica de janis joplin

Tempo continua passando
Amigos, eles vão embora.
Eu continuo indo...
Mas eu nunca descobri porquê
Eu continuo pressionando tanto o sonho
Eu continuo tentando fazer do jeito certo
Através de outro dia solitário, whoaa

O amanhecer chegou até que
Vinte e cinco anos, em apenas uma noite, docinho
Bem, eu tenho vinte e cinco anos agora
Então eu sei que não podemos estar certos
E eu não sou melhor, baby,
E eu não posso mais te ajudar
Como eu fiz quando era uma garota.

Aww, mas não faz diferença nenhuma, baby, não, não,
E eu sei que nós sempre podemos tentar
Isso não faz diferença , baby,
Eu aguento melhor isso
Eu preciso mais disso, yeah,
É melhor eu usá-lo até o dia em que eu morrer, whoa.

Não espere nenhuma resposta querido,
Pois eu sei que elas não vêm com a idade, não, não.
Bem, não vou nunca amar você mais, babe.
E eu nunca iria amá-lo direito,
Então é melhor você aceitar agora, já.

Oh! Mas não faz diferença nenhuma, babe, hey,
E eu sei que eu sempre poderia tentar.
Tem um fogo dentro de todos
É melhor você precisar dele, agora
Eu tenho que segurá-lo, yeah,
é melhor eu usá-lo até o dia em que eu morrer.

Não faz diferença nenhuma baby, no, no, no,
E nunca fará, hey,
Eu quero falar um pouquinho de amor
Eu tenho que segurá-lo, baby,
Eu vou precisar dele agora,
Eu irei usá-lo, diga, aaaah,

não faz diferença nenhuma docinho, Eu odeio ser "a escolhida"
Eu digo você terá que viver sua vida
E você terá que amar sua vida
Ou babe, algum dia você terá que chorar
Sim de fato, sim de fato, sim de fato,
Ah, baby, sim de fato.

Eu te disse, você sempre irá me machucar,
Eu disse que você sempre me deixará pra baixo
Eu disse em todo lugar, todo dia, todo dia
e de todas as maneiras, todas as maneiras.
Ah docinho por que você não segura aí o que vai mudar
Eu disse irá desaparecer
quando você virar as costas.
Eu disse você sabe que não estará aqui
Quando você quiser alcançar e agarrar.

Whoa babe,
Whoa babe,
Whoa babe,
Oh mas continue indo...
 
enviado por fernando barbosa

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

VIVIANE MOSÉ

Artigo - Um nenhum
(Publicado no site da agência Carta Maior, na seqüência de cartas endereças “Ao arqueólogo do futuro”.)
Senhor arqueólogo, foi muito difícil encontrar um lugar a partir do qual pudesse me dirigir ao senhor. Infinitas são as perspectivas que nosso tempo nos permite, desintegrado que está por tantas razões que não caberiam nesta cartinha. Então, resolvi falar de um lugar comum. O lugar de um homem.

Todo homem é comum mesmo não sendo. O não ser comum do homem parece estar em sua forma própria de ser comum. Em seu jeito singular de sofrer, brincar, envelhecer. Em sua necessidade de construir, simbolizar, criar. Um homem não deixa de ser comum mesmo entre letras, livros, máquinas, sistemas, signos. Um homem é sempre uma trajetória que declina. Que ascende, mas que declina. O comum do homem é sua aparição relâmpago, o seu constituir e o seu perecer. O comum do homem é sua necessidade de dizer, manifestar, inscrever, perpetuar. Ao mesmo tempo sua impossibilidade de permanecer. Todo homem constitui-se na tensão entre viver e morrer, entre dizer e calar, entre subir e descer. Mas, por razões extensas e difíceis, a história humana parece ter se ordenado em torno da vontade de não ser.

Não envelhecer, não sentir dor, não se cansar, não se aborrecer. O homem parece envergonhar-se de ser: pequeno, sensível, mortal, humano. E organiza-se em torno de um ideal de homem, sem corpo. O homem envergonha-se de seu corpo. Não de seu sexo ou de seu prazer, mas de suas vísceras, de seus excrementos, de seus sons e odores, de seu processo bioquímico, fisiológico, orgânico. O homem envergonha-se de morrer e vai acuando-se, escondendo-se, perdendo-se em torno de uma idéia, de uma imagem. Em sua luta por não ser comum, o homem tornou-se nenhum. Todo homem virou nenhum. Nenhum homem na rua, em casa. Nenhum homem na cama. Nenhum homem, mas um nome. O homem se reduziu a um nome. Não um nome próprio, mas um substantivo.

Mas um homem é sempre maior que um nome mesmo que não queira. E uma outra história foi sendo tecida por trás desse desejo de não ser. Enquanto construía seus mecanismos de não corpo, enquanto se constituía como idéia, pensamento, imagem, a humanidade proliferava em seus excessos contidos, em suas angústias não canalizadas, em suas paixões não vividas, em seus pavores maquiados. E um corpo invertido, nascido de tantos corpos abafados, foi constituindo-se socialmente, foi ganhando força e vida. Uma vida invertida, mas uma vida.

Tóxica, ela foi se alastrando pelas casas, pelas ruas, em forma de morte. A morte negada, as perdas e dores abafadas, saíram às ruas reivindicando seu espaço. O que antes esteve circunscrito aos campos de batalha, às margens, aos guetos, agora ganha as escolas, os metrôs, os restaurantes, as praias. Não há mais lugar seguro, carros blindados, condomínios fechados. Agora todos somos igualmente passíveis.
Vivemos a democratização da violência. Vivemos o predomínio daquilo que foi por tanto tempo obstinadamente negado.

A violência trouxe-nos de volta a urgência pelo corpo, pela vida, pelo tempo. E apartou-nos de nosso sonho de perenidade, de futuro, de verdade. Agora, todos estamos órfãos de nosso medíocre projeto de felicidade. Agora é preciso viver, temos urgência do instante, precisamos do corpo, mesmo gordo, magro, estrábico. E aqui, de meu lugar comum, de mulher comum, enquanto lavo a louça do café olhando a cor insistente da tarde que passa, me pergunto por quê? Por que não os dias nublados, as dores do parto, os serviços domésticos? Por que não o escuro, o delírio, a solidão? As lágrimas, os espinhos no pé, as quedas?

Dizem que o homem, como conhecemos, tende a desaparecer. É possível que uma espécie mais forte possa surgir, uma espécie capaz de um dia divertir-se com este nosso hábito demasiadamente humano de negar o inexorável, de controlar o incontrolável, e, não conseguindo, de esconder-se em cápsulas virtuais, em psicotrópicos de ultima geração, em imagens. Um homem que talvez tenha sempre existido pode começar enfim a surgir. Um homem capaz de viver a dor e a alegria de ser mortal, singular, sozinho, comum. Um homem capaz de gritar sua dor impossível. Um homem capaz de cantar. Um homem capaz de viver.
 Viviane Mosé

NEI SILVEIRA DE ALMEIDA







TENHO  MUITA  PENA  DE  VOCÊS
 
Tenho muita pena de vocês políticos. Que ocupam cargos  executivos, ministérios, secretarias municipais e estaduais, senadores, deputados  federais e estaduais, vereadores e apadrinhados políticos que ocupam cargos em repartições públicas de todas as esferas, e estão roubando acintosamente, usufruindo de desvios do dinheiro público, usando cartões corporativos indiscriminadamente, aumentando fartamente seus próprios salários e enganando o povo miserável e analfabeto absoluto e/ou funcional comprando seus votos com esmolas assistencialistas.
Tenho pena porque vocês não devem poder sequer se suportar, e o quanto  devem sentir-se envergonhados dos ensinamentos que certamente seus pais lhes deram e vocês ignoraram.
Mas, o que mais me dá dó é saber que vocês jamais sentiram o inigualável sabor de exercer a cidadania com dignidade, trabalhar e produzir riquezas para o País. Nunca tiveram a grata satisfação de chegar em casa depois de um dia de trabalho, sabendo que cumpriu sua missão como cidadão e que contribuiu para o engrandecimento da Pátria, e ainda,  arrepiar-se de emoção ao perceber o orgulho de um filho, como percebo que os meus sentem de mim.  
Vocês não podem imaginar o quanto é delicioso bater no peito e dizer bem alto:
- Que prazer imenso ser um brasileiro digno e honrado!
 
Nei Silveira de Almeida
Aposentado