quarta-feira, 5 de novembro de 2014

PAULA FAOUR TRIO



Meus queridos o show no Capanema/Funarte foi lindo. Agradeço a todos que foram, e os que não puderam ir, quinta dia 06/11, depois de amanhã tem mais, e agora é no Berço da Bossa Nova onde tudo começou!
Anotem as informações abaixo e aguardo voces lá.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

ROBERTO ROMANELLI MAIA




A RAIVA E O ÓDIO COMO ALIMENTOS

 

NAS ULTIMAS ELEIÇÕES

 
ROBERTO ROMANELLI MAIA
ESCRITOR, JORNALISTA E POETA


 
As últimas eleições e a polÍtica que se apresentou no dia a dia dos brasileiros, independentemente da ideologia defendida e pregada por cada um, na prática, seja qual  for, consistiu na pregação sistemática da raiva, do ódio e da destruição do rival, num vale tudo que, em um país verdadeiramente civilizado, seria razão para a exclusão da candidata à reeleição.
Infelizmente, Dilma, o PT/PMDB e seus marqueteiros, sem ética e sem respeito por ninguém, procuraram seguir os  passos da própria história humana, que nos ensinou essa mesma prática. Lembremos que há bem pouco tempo, na Guerra Fria, vimos a pregação que incentivava os americanos a odiarem os comunistas, e os soviéticos, os capitalistas.
Mas atrás no passado constatamos que na Revolução Francesa, Jacobinos e Girondinos odiavam-se reciprocamente, e ambos odiavam a monarquia, a tal ponto que milhares de cabeças foram cortadas apenas porque era mais fácil odiar os nobres, prendê-los e eliminá-los.
Durante o Brasil Imperial, os conservadores e os liberais  detestavam-se e segundo os historiadores revelam eles se pareciam de tal forma que não se distinguia claramente quem era quem e a qual partido pertenciam.
Nas eleições presidenciais de 2014 o quadro que se apresentou diante de todos foi também o da raiva e do ódio organizado e direcionado, para converter-se em votos, o que significaria a reeleição da então candidata Dilma.
Utilizaram  as redes sociais,  não para serem apresentadas as necessárias propostas de Dilma de um futuro governo, mas para repassar acusações, injurias, slogans e notícias falsas e tendenciosas sobre o candidato adversário.
Inventaram ou distorceram gráficos e exageraram ou falsificaram números e dados.
Criaram caricaturas de péssimo gosto, todas espalhadas por todo o país, tendo como objetivo ridicularizar e humilhar o oponente.
Pior: o alvo de tanta raiva e de tanto ódio não foi apenas o candidato rival, mas também seus eleitores, num frenesi que a cada dia se tornou rapidamente pura agressão e humilhação.
Na prática o programa e a ideologia da candidata e dos partidos que ela representava permaneceu durante toda a campanha escondido e em último plano.
Os petistas e os marqueteiros de Dilma souberam muito bem organizar sistematicamente essa raiva e  ódio, pintando o rival com as cores do que o seu eleitorado imaginava serem as do próprio demônio.
Isso não pode ser negado; ficou claro, escancarado e subjacente em toda a campanha eleitoral.
Forjou-se, de forma pérfida e maldosa, uma falsa polarização entre a direita e a esquerda, muito mais retórica do que prática, rotulando-se o candidato oponente, Aécio, como sendo de uma direita conservadora, um demônio que acabaria com os programas sociais, o Banco do Brasil, A Caixa Econômica, o BNDES, etc.
Pior: que ele leiloaria o Brasil ao capital internacional com o objetivo, de reduzir nossa liberdade individual e de corromper a administração pública ou destruí-la.
A campanha da candidata à reeleição não se preocupou em esclarecer seus programas de governo, concentrando-se em  destilar o medo e fazer com que o voto do eleitor não fosse a favor do outro candidato, mas contra ele, acusando Aécio de promover um retrocesso se fosse eleito. Que ele iria instaurar o caos com o cancelamento dos programas sociais de caráter assistencialista, em especial o Bolsa Família.
Para alcançar seu objetivo, ela contou com a ajuda e colaboração das redes sociais, que participaram dessa batalha campal, sendo o principal front em que seus exércitos de raiva e de ódio contra um candidato se reuniram para um combate sem limites éticos de nenhuma espécie. 
Essa organização sistemática da raiva e do ódio consistiu em definir e agrupar os outros, como inimigos, buscando transformar todos os adversários eleitorais em objetivos de deboche e de humilhação.
Até a mídia , em especial as redes de TV, buscaram estimular tais simplificações e a estratégia do ataque, da raiva e do ódio, sob o pretexto visível que se houvesse  diálogo civilizado, ele não traria resultados, muito menos, voto.

PAULA FAOUR


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

WALDO LUÍS VIANA




A DESCONSTRUÇÃO DO PT
“O discurso do PT é 80% mentira e 20% malandragem.”
Fernando Gabeira

Waldo Luís Viana*

         Estamos assistindo a uma das eleições mais sujas, já havidas desde 1989, quando recuperamos o direito sagrado de votar num presidente da República. Pela primeira vez, em doze anos, o PT viu a possibilidade de perder um pleito presidencial e lançou mão de expedientes reprováveis, tentando fulminar o caminho exitoso e surpreendente do candidato da oposição.
         O objetivo passou então a ser desconstruí-lo, fazendo uso de argumentos que destruíssem sua honra pessoal e seu passado político, sacrificando até a necessária campanha propositiva, de oferecimento de ideias novas e comprometidas com o futuro do povo brasileiro.
         Tal conduta, porém, tornou-se, perigosamente, uma faca de dois gumes, porque, se não surtiu na hora o efeito desejado, pode “não colar” na consciência do eleitorado que, desconfiado, passou a entender que a estratégia esconde um feixe de mentiras e exageros que não cabe mais nesse apagar das luzes do embate eleitoral.
         O último debate, oferecido pelo SBT, marcou a virada da oposição. O candidato foi assertivo, devolvendo as insinuações maldosas  da  candidata oficial. Provocou-lhe até um mal-estar, vez que  ela, acostumada a mandar e a dizer o que quisesse  para os seus subordinados e áulicos, não estaria preparada para ouvir o que não queria – ou não esperava – sofrendo um pouco com a linguagem corajosa voltada contra si pelo candidato adversário. Logo ela que se acostumou a lançar  automaticamente aleivosias e mentiras, a mando de seu marqueteiro de plantão...
         O pleito vai se consumar dentro de alguns dias e parece que a desconstrução do candidato de oposição não se deu, porque não alcançou a profundidade emocional necessária no eleitorado. Ficaram mais fortes as tinturas da inflação descontrolada, do crescimento pífio, da recessão técnica, da corrupção nas estatais e do aparelhamento pelo PT dos órgãos de governo.
         A sensação do povo é que estamos sem ar, num túnel escuro, cuja luz ao final depende de uma escolha corajosa e firme, contrária a tudo que está aí e que já deu o que tinha que dar...
         O candidato de oposição mostrou-se duro de ser ultrapassado e demonstrou uma energia e um convencimento próprio que parece não existir na candidatura oficial.
         A presidente está cada vez mais perdida, o que se vê na recente admissão de que houve mesmo corrupção na Petrobras. Ela já não pode dizer que é isento de pecados o diretor implicado na trama, que foi ao casamento da filha presidencial e convidado para assumir um ministério, que delicadamente recusou. A devolução ao Erário dos recursos desviados, agora, na undécima hora, passam a ser admitidas como assunto até válido pelo marqueteiro oficial.
         Por essas e outras, o PT parece querer oferecer na próxima semana uma “bala de prata”, capaz de desconstruir de vez a candidatura de oposição, liquidando-a num arroubo emocional.
         Todos esperam, enfim, que o “laboratório de maldades” destile um fel poderoso, capaz de ressuscitar a candidatura oficial, que está em nítida desvantagem em várias regiões populosas do país.
         O interessante é que semelhante desígnio é acompanhado diligentemente pelos adeptos da oposição. Todos sabem do que o PT é capaz, para se manter dono do governo e dos brasileiros para a eternidade.
         Nesse sentido, a oposição também guarda a sete chaves uma “bala de prata”,  no bravo estilo 45 de contrapropaganda. O caminho oposicionista foi trilhado, inclusive, a partir da tônica oficial de desconstrução.  Foram eles que determinaram a postura que a oposição deveria tomar...
         E a conduta escolhida, de bater quando houvesse agressão, surtiu efeito brutal e mal estar, traduzindo a certeza de que as insinuações mesquinhas, envolvendo a honra pessoal do candidato de oposição, não deram certo, provocando um terremoto na conduta oficial.
         Vê-se, nitidamente, que o PT e seus adeptos estão reajustando a tática para os momentos finais. Isso mostra os seus equívocos e a necessidade de correção de rumos.
         Agora já é aceito que houve corrupção na Petrobras. Resta saber quem vai pagar o prejuízo e se a antiga chefe do Conselho de Administração da empresa irá arcar com as suas evidentes responsabilidades...
         Na verdade, o que está havendo é a desconstrução do mito da gerente, porque como disse muito bem, em várias intervenções, o candidato de oposição: das duas uma: ou ela foi conivente com a corrupção ou então, sem saber nada de nada (como é habitual no PT), foi soberanamente incompetente.
         De qualquer maneira, essa sinuca de bico demonstra, de modo cabal, que a candidata oficial não tem os méritos necessários para continuar sendo presidente de nossa atônita Pátria.
         Nós, brasileiros, vamos às urnas, conscientes de que somos responsáveis por um país que precisa se libertar e se reconstruir...
_______________
*Waldo Luís Viana é escritor, economista e poeta e está de saco cheio de tanta delinquência e corrupção no governo.
Teresópolis, 20 de outubro de 2014.
 

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

ROBERTO ROMANELLI MAIA




Reflexões das horas amargas
 
Roberto Romanelli Maia
Escritor, Jornalista e Poeta
 
Talvez por fugir da rotina, da mesmice, dos lugares comuns e dos chavões,
que fazem parte da vida dos “normais”,  tão fáceis
de se encontrar em nosso dia a dia, sinto um vazio dentro da plenitude em que vivi ...
 
Se falta não sinto do que não vivi nessa vida,
talvez mesmo seja o contrário,
deveria ter vivido menos e ter tido mais tempo
para não aceitar viver dentro da “selva de pedra”
que constitui a maior parte das cidades desse planeta.
 
Sim, talvez devesse ter fechado minha porta e algumas janelas
que permaneceram abertas, desnecessária e indevidamente.
 
 
Sim, se o mundo gira e gira, eu senti esse girar
de forma mais intensa e prolongada do que a maioria.
 
Mas essa velocidade e esse ritmo para que serviu?
 
Ele interferiu e se fez presente,
trazendo para minha vida um redemoinho de sentimentos,
de emoções e de sensações pouco conhecidas.
 
Algumas desnecessárias, abrasivas e inúteis.
 
Foram esses ventos incontroláveis, que me conduziram a caminhos
esquecidos, perdidos através de milênios de história.
 
História cujos atores souberam viver todos os papéis,
incluindo os mais inglórios, ingratos e tortuosos.
 
Sim, meus caminhos se confundem com aqueles dos conquistadores,
dos bárbaros, dos aventureiros, dos homens que não seguiam,
nem obedeciam leis impostas por outros homens,
e que ousaram buscar novas terras e outras conquistas,
inatingíveis para a época.
 
Relembro o quanto sofremos, desbravando o desconhecido
que  mesmo assim se apresentava nítido diante de nossos olhos.
 
Da luz das estrelas, que nos guiava nas noites sem brilho
e sem uma lua cheia, a clarear os locais por onde passávamos.
 
Quando chegávamos a algum lugar, ficávamos desnorteados,
sem saber o que iria se apresentar diante de nós.
 
Seguíamos para frente, como se caminhássemos numa estrada de estrelas
que, a cada passo, levava-nos mais adiante.
 
Hoje, voltando atrás no tempo e no espaço,
percebo a dimensão do universo em que vivo;
suas possibilidades e suas vertentes e nuances,
inexploradas e desconhecidas.
 
Sou filho desse Universo, que me levará algum dia
para ser testemunha silente da derradeira explosão
que fará tudo recomeçar...
 
Fez-se a luz!  Surgiu o homem!
 
Mas rapidamente ele se destruiu e desapareceu!

terça-feira, 9 de setembro de 2014

LIVROS/LANÇAMENTOS





Apresentação e autógrafos dos livros

A Sociologia como Aventura - memórias  e 

Uma Sociologia da vida cotidiana

de José de Souza Martins


20 de setembro (sábado) de 2014das 10h30 às 13h

CapasSociologiaJSM

A Sociologia como Aventura - memórias
A Sociologia é uma modalidade peculiar de aventura, sobretudo porque interroga realidades que as pessoas supõem conhecer, mas de fato não conhecem e até temem conhecer. Neste livro, o sociólogo José de Souza Martins expõe as décadas de sua própria aventura numa travessia de indagações sobre o Brasil que mudava e construía sua modernidade.
O leitor encontra nesta obra um testemunho de quem viu e viveu os tempos adversos da ditadura militar, atuando na pesquisa científica, no ensino universitário e nos movimentos sociais, através da educação popular.
A Sociologia como aventura (memórias)
de José de Souza Martins
Editora Contexto
Nº de páginas: 352
Formato: 16x23

Uma Sociologia da vida cotidiana
Uma Sociologia da vida cotidiana se propõe a investigar, descrever e interpretar desde as simples ocorrências de rua até os fatos e fenômenos sociais relevantes e decisivos.
Neste livro, o sociólogo José de Souza Martins faz um mergulho nesse campo e investiga peculiaridades da sociedade brasileira, particularmente sobre as Ciências Sociais dentro e fora da sala de aula, a desigualdade social, a cultura popular e a língua que falamos.
Obra essencial para estudantes, pesquisadores e educadores da área, mas também a todos os interessados em compreender melhor a sociedade em que vivemos.
Uma Sociologia da vida cotidiana,
de José de Souza Martins
Editora Contexto
Nº de páginas: 224
Formato: 16x23
O AUTOR:
José de Souza Martins
José de Souza Martins é um dos mais importantes cientistas sociais do Brasil. Professor titular aposentado de Sociologia e professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), foi eleito fellow de Trinity Hall e professor da cátedra Simón Bolívar da Universidade de Cambridge (1993-1994). É mestre, doutor e livre-docente em Sociologia pela USP. Foi professor visitante na Universidade da Flórida (1983) e na Universidade de Lisboa (2000). Foi membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão (Genebra, 1996-2007). Professor Honoris Causa da Universidade Federal de Viçosa, doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Paraíba e doutor Honoris Causa da Universidade Municipal de São Caetano do Sul. Autor de diversos livros de destaque, ganhou o prêmio Jabuti de Ciências Humanas em 1993 – com a obra Subúrbio –, em 1994 – com A chegada do estranho – e em 2009 – com A aparição do demônio na fábrica. Recebeu o prêmio Érico Vannucci Mendes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em 1993, pelo conjunto de sua obra, e o prêmio Florestan Fernandes da Sociedade Brasileira de Sociologia, em 2007. Pela Contexto, publicou os livros A sociabilidade do homem simples, Sociologia da fotografia e da imagem, Fronteira, O cativeiro da terra, A política do Brasil lúmpen e místico e A Sociologia como aventura.



Data:  20 de setembro (sábado) de 2014das 10h30 às 13hLocal: Livraria Alpharrabio(Rua Eduardo Monteiro, 151 - Jd. Bela Vista (altura do nº 1000 da av. Portugal)
Santo André/SP  - tel.: [11] 4438.4358)

quarta-feira, 30 de julho de 2014

CELSO LUNGARETTI




A TRAGÉDIA DO ORIENTE MÉDIO

Celso Lungaretti (*)

Era uma vez o Oeste: mocinho de branco e bandido de preto.
Os folhetins, o cinema e a TV nos acostumaram a observar os complexos dramas das pessoas, povos e nações a partir de uma ótica simplista: heróis-vilões-vítimas.

Ou, simplificando mais ainda, a acreditarmos que quem causa sofrimento às vítimas são os bandidos e quem as defende, os mocinhos.

No fundo, trata-se do velho e obtuso maniqueísmo, a que os pensadores marxistas contrapuseram a dialética: Bem e Mal não existem como instâncias metafísicas que, desde os píncaros do paraíso celestial ou das profundezas do inferno, teleguiam a práxis humana, mas sim como resultado das decisões e ações adotadas pelos homens em cada situação.

No primeiro caso, alguns encarnam o Bem absoluto e o Mal absoluto, sem nuances: os mocinhos são sempre mocinhos e os bandidos, eternamente bandidos.

Na análise marxista, os papéis vão sendo assumidos a cada instante, de forma que o mocinho de ontem poderá ser o bandido de hoje, e vice-versa.

A esquerda mundial até hoje não se recuperou do pesadelo stalinista, que, como Isaac Deutscher bem assinalou, foi um amálgama do pensamento sofisticado dos revolucionários europeus com a religiosidade primitiva da Santa Mãe Rússia.

A esquerda retrocedeu ao maniqueísmo
E a História, infelizmente, favoreceu essa perda de densidade crítica por parte da esquerda. O nazifascismo parecia mesmo encarnar o Mal absoluto, colocando os que o combatiam na condição de cruzados do Bem absoluto.

Veio a guerra fria e a estreiteza de visão se consolidou definitivamente, de ambos os lados. A política mundial se tornou um mero western daqueles tempos em que os mocinhos se vestiam sempre de branco e os bandidos só usavam trajes negros.

Então, desde a década de 1950, quando os EUA se colocaram como protetores de Israel e os soviéticos se compuseram com o líder egípcio Gamal Abdel Nasser, ficou estabelecido que a única forma progressista de encararmos os conflitos do Oriente Médio era beatificando os árabes e satanizando os judeus.

A questão no Oriente Médio é muito mais complexa.

Em primeiro lugar, temos um povo (o judeu) milenarmente perseguido, não só devido à maldade intrínseca dos poderosos de todos os tempos, mas também a uma certa vocação para o martírio: nunca quis misturar-se aos outros povos e conviver harmoniosamente com eles, fazendo, pelo contrário, questão de preservar sua identidade cultural/religiosa e de ostentá-la aos olhos de todos.

Então, mais do que a outros povos, fazia-lhe imensa falta um território próprio. Constituindo uma colônia minoritária em outros países e segregando-se rigidamente dos naturais desses países, neles despertava previsível hostilidade.

Ademais, os judeus eram invejados pelos gênios da cultura e da ciência que produziam (Marx, Freud, Einstein e tantos outros) e por seu êxito nas finanças, além de despertarem a hostilidade dos governos pela participação marcante que tinham em movimentos libertários/revolucionários.

É sintomático, aliás, que a esquerda hoje esqueça ou omita a importantíssima contribuição do Bund (União Judaica Trabalhista da Lituânia, Polônia e Rússia) para a gestação do movimento revolucionário russo, no início do século passado.

Gueto de Varsóvia: vítimas ontem, algozes hoje em Gaza. 
HOLOCAUSTO – Ao buscar um inimigo comum contra o qual unir a nação alemã, Hitler não precisou pensar muito: os judeus eram a opção óbvia.

Finda a II Guerra Mundial, a indignação que o Holocausto provocou na consciência civilizada fez com que a ideia de um lar para os judeus passasse a ser vista com simpatia generalizada.

Foi quando estes cometeram seu maior erro de todos os tempos: aceitando a liderança espúria de fundamentalistas religiosos/terroristas sanguinários, implantaram seu estado nacional numa região em que se chocariam necessariamente com outros fundamentalistas religiosos/terroristas sanguinários.

A Inglaterra, império decadente, bem que tentou impedir este desvario, em vão. E as pombas desnorteadas, judeus imbuídos dos melhores ideais, acabaram aderindo em massa ao projeto sinistro dos falcões.

Então, uma das experiências socialistas mais avançadas que a humanidade conheceu, a dos kibbutzim (comunidades coletivas voluntárias israelenses), acabou sendo tentada num país que logo viraria campo minado – e, melancolicamente, foi definhando, até quase nada diferir hoje em dia das cooperativas dos países capitalistas.

As nações árabes só não exterminaram até agora o estado judeu porque jamais o enfrentaram juntas e disciplinadas, sob um verdadeiro comando militar. Mesmo quando vários exércitos combateram Israel, como na guerra dos seis dias, atuaram praticamente como unidades independentes, em função das querelas e disputas de poder entre os reis, sheiks, sultões, califas, emires, etc., de países cuja organização política e social ainda é feudal.

Kibbutzim: os belos ideais se foram, o militarismo ficou.
Os israelenses, por enquanto, têm compensado sua inferioridade numérica com a superioridade de seus quadros e equipamentos militares, bem como com a repulsiva prática de promover massacres intimidatórios, reagindo de forma desproporcional e freqüentemente genocida aos ataques que sofre.

Os movimentos fundamentalistas/terroristas árabes agem como provocadores: sabem que jamais conseguirão enfrentar de igual para igual Israel, mas atraem retaliações contra seus povos, na esperança de que isto acabe trazendo as nações para o campo de batalha. Querem ser o estopim de uma guerra santa e não hesitam em sacrificar os seus em nome dos desígnios de Alá.

Os governantes feudais árabes, entretanto, têm mais medo de serem desalojados dos seus palácios do que ódio por Israel. Sabem que, da mobilização contra o inimigo externo, as massas podem evoluir para o questionamento da desigualdade gritante e dos privilégios odiosos dos tiranetes de seus países. Preferem preservar o status quo, ao preço de fecharem os olhos a atrocidades como as cometidas contra os palestinos em Gaza.

Não se trata de nenhum filme de mocinho-e-bandido, pois só há vilões entre os atores políticos; ninguém que mereça nossa simpatia e aplauso.

Hoje, é esta a 'contribuição' de Israel à humanidade...
Quanto às vítimas, estas sim são indiscutíveis: os civis que, desde 1948, têm sido abatidos como moscas, devido à cegueira e (sejamos francos) imoralidade monstruosa desses atores políticos.

No fundo, a solução sensata seria o estabelecimento dos judeus noutro território qualquer – quantos países paupérrimos não lhes cederiam terras e autonomia administrativa, em troca de recursos e cooperação para seu desenvolvimento?

Mas não é a sensatez que rege o mundo e sim, como Edgar Allan Poe notou, o horror e a fatalidade.

Então, os Hamas da vida seguirão semeando ventos e os israelenses desencadeando tempestades. E os civis que não estão em guerra com ninguém, inclusive velhos, mulheres e crianças, deverão continuar sendo os mais atingidos, para horror do mundo civilizado, até que surja um novo T. E. Lawrence e consiga levar à vitória a guerra santa sonhada pelos fundamentalistas/terroristas árabes.

Em sua arrogância míope, cada vez mais desumanizados, os israelenses esquecem a frase lapidar de Napoleão Bonaparte: "Com as baionetas pode-se fazer tudo, menos uma coisa: sentar-se sobre elas". Ao tornarem o estado judeu um bunker, predispuseram-no ao destino habitual dos bunkers. Mais dia, menos dia, acabam sendo tomados pelos inimigos. Quantos morrerão até lá?

O que temos no Oriente Médio é, portanto, uma tragédia: os acontecimentos marcham insensivelmente para o pior desfecho e nada podemos fazer, exceto atenuar, tanto quanto possível, os banhos de sangue.

* jornalista e escritor. http://naufrago-da-utopia.blogspot.com