segunda-feira, 19 de agosto de 2013

ROBERTO ROMANELLI MAIA








NO BRASIL, NA ESCOLA NÃO SE APRENDE

ROBERTO ROMANELLI MAIA
ESCRITOR, JORNALISTA E POETA

Mentem e mentem acintosa e despudoramente, quando afirmam que você irá aprender algo de útil e de precioso na atual escola brasileira, em todos os níveis.
Mentem seu pai, sua mãe, as professoras e todo mundo. E não é por mal: eles realmente ainda acreditam nisso.
Mas as mentiras não param por aí;  várias outras serão transmitidas ao longo da sua vida, incutindo dentro de você um programa que roda sem parar dentro de sua cabeça. Programa esse planejado, criado e desenvolvido para manter a maioria de nossa população em níveis mínimos de exigência globais, que permitem à maior parte das elites e das classes dominantes manter o “status quo” possibilita o controle e o domínio real dos cidadãos do Brasil.
Esse processo de massificação da ignorância, através de falsos ou de precários conhecimentos, e da falha iniciação cultural, começa, é claro, na escola. Você aprende meias verdades e muitas mentiras, além de condicionamentos negativos. Pior: preparam você para ser “obediente, pacífico, politicamente correto, etc", para não questionar nem reagir, mesmo quando necessário.
Esse sistema tenta mostrar que resistir é inútil, deixando claro, desde o começo, que muito pouco ou quase nada pode ser alterado por você, mesmo que acompanhado por outros.
Pode-se espernear à vontade, mas, no outro dia, você terá que voltar porque “aprender” no Brasil é se sentar e ouvir:  nada  semelhante a criar ou a ser livre.
Sim, você está sendo preparado, diariamente, para acreditar que alguém, lá em cima, é quem sabe e quem decide por você.
Claro que não se discute nesse artigo afirmações como essa: a teoria ensina muito mais que a prática, porém a maioria de nós está ciente que certos conteúdos são importantes, como a matemática, a física, a história e o português.
O que questionamos está no fato de que inexiste o interesse, entre outros, em ensinar música, artes, etc., como se tais assuntos não possam ter valor e relevância na nossa vida adulta.
Vende-se a falsa concepção de que a competição faz mais sentido que a cooperação, e que se fizermos tudo direitinho, conforme previsto por outros e pelo sistema, seremos recompensados, bem sucedidos e felizes.
Claro que nada disso é verdadeiro, contudo diante dos condicionamentos que foram realizados o estrago está feito.
Depois de anos na escola, saímos devidamente condicionados e prontos para seguir e reproduzir  sistema. Esse, em que vivemos, hierárquico e baseado essencialmente, nas entranhas do sistema, na manipulação, no poder e no controle.
No livro Hierarquia, Augusto de Franco desenvolve uma metáfora à Matrix, dentro de um contexto e de um sentido macro social.
Conta que essas pessoas  que reproduzem comportamento semelhante, os que aprendem na escola de hoje, deformam completamente o campo social em que vivem:
“Elas acham que o mundo social só pode ser interpretado por meio de um conjunto de crenças básicas de referência, que tomam por verdades evidentes por si mesmas, axiomas que não carecem de corroboração.
Exemplos dessas crenças são:
– o ser humano é inerentemente (ou por natureza) competitivo.
– as pessoas sempre fazem escolhas, tentando maximizar a satisfação de seus próprios interesses materiais (egotistas).
– sem líderes destacados não é possível mobilizar e organizar a ação coletiva.
– nada pode funcionar sem um mínimo de hierarquia.”
Ocorre que desde muito cedo, agimos com base nessas crenças comuns e nada científicas, de forma a reproduzir uma realidade deformada.
De fato, o que ocorre é que, em conjunto, estamos perpetuando uma cultura patriarcal europeia, onde continuamos  inseridos.
Humberto Maturana, neurobiólogo chileno, desenvolveu um estudo profundo da criação e da reprodução dessa cultura, no livro Amar e Brincar: Fundamentos esquecidos do humano, e ele afirma:
“Em nossa cultura patriarcal, repito, vivemos na desconfiança da autonomia dos outros. Apropriamos-nos o tempo todo do direito de decidir o que é ou não legítimo para eles, no contínuo propósito de controlar suas vidas. Em nossa cultura patriarcal, vivemos na hierarquia, que exige obediência.
Afirmamos que uma coexistência ordenada requer autoridade e subordinação, superioridade e inferioridade, poder e debilidade ou submissão. E estamos sempre prontos para tratar todas as relações, humanas ou não, nesses termos. Assim, justificamos a competição, isto é, o encontro na negação mútua como a maneira de estabelecer a hierarquia dos privilégios, sob a afirmação de que a competição promove o progresso social, ao permitir que o melhor apareça e prospere.”
É por aí, mas nem tudo está perdido!
Estamos diante de um período intenso de transição, que envolve a passagem de uma sociedade hierárquica para uma sociedade em rede, prestes a descobrir que essa sociedade, que começou a se apresentar há duas décadas, funciona baseada em uma outra lógica de abundância e de cooperação onde, nós como seres sociais que somos,  reconhecemo-nos e ajudamos, em um ciclo de trocas constantes.
Custamos a acreditar nela porque suportamos, desde pequenos, o “programa pré estabelecido” pelo patriarcado e pela hierarquia que nos tenta convencer, todos os dias, que somos meros números e figuras passivas, de cabeça baixa, diante do poder e da autoridade que nos é imposta.
Com o exemplo das escolas, vislumbramos o malware que opera na nuvem social; é através desse mesmo exemplo que enxergamos o começo de uma revolução.
Embora poucos, vemos alguns que já começam a questionar esse sistema tradicional de ensino, sempre presente há décadas, e o que entendemos por escola.
Todos nós pensamos em mudanças, alternativas e novos meios de ensinar e aprender.
São esses questionamentos que deveriam mostrar uma ideia clara para os políticos, governos e governantes: eles devem assimilar e entender que não são só as escolas que estão sendo questionadas, mas toda uma estrutura politica, social e econômica que existe em nosso país.
Ninguém quer mais, se puder de fato ser livre para decidir, que nesse novo milênio só seja autorizado a reproduzir e a obedecer.
Queremos ter outras opções e mais liberdade pessoal e coletiva, para pensar e decidir por nós próprios.
Queremos ter o direito de questionar o que nos dizem, trilhar nossos próprios caminhos e criar novos.
Isso se reflete na crise do ensino tradicional, nos antigos modos de trabalho e nas estruturas das grandes corporações.
Não estamos falando de entidades separadas, mas interdependentes que se integram sob várias formas.
É chegada a hora de entender que aprender é sinônimo de inquietude; a ideia fundamental contida nessa afirmação é constatar que muitos já começam a abandonar os empregos seguros, para embarcar numa outra lógica e num outro caminho de vida, onde a qualidade supera o mero conceito de um consumismo desenfreado, de abundância ou de uma eventual escassez; de colaboração, ao invés de competição. De um conhecimento mais livre, diversificado e não, engajado, ao invés daquele pronto, programado, limitado e encaixotado.
Sim, aprender  nada tem a ver com essa escola brasileira, tradicional, conservadora e falida, que não se transforma nem se atualiza, permanecendo imune às mudanças que o tempo e o desenvolvimento humano trouxeram e incorporaram, já inserida, aproveitadas e desenvolvidas nos sistemas sociais, políticos, econômicos e educacionais de outros países.
Tem a ver com gente, com encontro, troca e conexão. Tem a ver com aquela fagulha que faz nascer e surgir coisas boas e novas, para que essas possam vir à tona. Que desperta uma vontade grande de descobrir algo mais, conhecendo mais e mais pessoas diferentes, não enquadradas nem cooptadas pelo sistema, em busca de novas opções, referências, alternativas e possibilidades.
Frequentar novos lugares, procurando novos desafios de vida. Começando um outro livro, ou escrevendo um poema de vida, que retrate de fato sentimentos, emoções e sensações reais e não aquelas de ocasião.
Aprender é abrir  um mundo de possibilidades, que fará você mudar de óculos para enxergar aquilo  que não enxergava antes.
É o que fará você preparar-se para viver, ser, pensar, sentir e amar mais do que pode conseguir em qualquer aula, na atual escola brasileira.

Um comentário:

Antonio Lopes disse...

Um dos problemas da educação no Brasil é que os alunos não querem aprender nada,não sabem o que é educação ,nem se interessam,não valorizam os professores,nem eles e nem seus pais. Parece que não jeito