quarta-feira, 2 de abril de 2008

ROBERTO PIVA


ESTRANHOS SINAIS DE SATURNO

ROBERTO PIVA
Último volume das obras reunidas de um dos mais importantes poetas brasileiros contemporâneos é acompanhado de CD com gravação de poemas do autor lidos pelo próprio Piva
Estranhos sinais de Saturno, do poeta paulistano Roberto Piva, é o terceiro volume de suas obras completas, organizadas e apresentadas por um dos principais nomes da atual crítica brasileira, o professor da Unicamp Alcir Pécora. Dividido em quatro seções, contém a poesia de Piva produzida do início dos anos 1980 até hoje: traz, assim, o relançamento integral de Ciclones, de 1997; o lançamento do livro inédito que dá título ao volume; um terceiro grupo de “manifestos” e, por fim, um CD contendo poemas lidos pelo seu autor. Integram ainda o volume uma “Nota editorial”, um “Posfácio” de autoria de outro grande nome da crítica contemporânea, Davi Arrigguci Jr., e uma “Bibliografia” detalhada. Através desta iniciativa edi torial, um poeta brasileiro contemporâneo tão conhecido quanto relativamente pouco lido tem sua obra reeditada à altura, tornando-a devidamente acessível para o público, a crítica e a academia.Roberto Piva é um caso particular na poesia brasileira contemporânea. Essa particularidade é a soma de vários aspectos. Não em ordem de importância, há o fato de ele poetizar a cidade de São Paulo, quando a cidade é a grande ausente da poesia paulistana desde o modernismo. Além disso, sua obra surge à mesma época do construtivismo concretista, do qual, de certa forma, Piva é o grande antípoda – ainda mais que a poesia “marginal” carioca, cuja maior representante é Ana Cristina César. A poesia do século XX descende diretamente do simbolismo. É de sua liberdade individualista, desafeita às formas clássicas, que advém tanto as vertentes construtivistas (como o futurismo) quanto as subjetivistas (como o surrealismo). Nos anos 1950, a primeira vertente originaria o concretismo, enquanto a segunda tanto a poesia “marginal” no Brasil quanto a poesia beat nos EUA. Piva, em suma, é um poeta moderno cuja ascendência inclui o simbolismo, a poesia de Whitman, o movimento beat, o jazz, a contracultura dos anos 1970 e os movimentos pelos direitos civis, além da citada temática urbana. Deve-se acrescentar ainda sua relação com a chamada etnopoesia – ligando Piva ao multiculturalismo – através da figura-síntese do xamã, recorrente em sua fase recente. De tudo isso, o aspecto mais conhecido &ndas h; numa poesia de resto bem menos conhecida do que deveria – é o homossexualismo, e mais genericamente o sexualismo, em que, apenas para ficar na língua portuguesa – deixando então de lado figuras seminais como Kaváfis –, Piva é herdeiro direto do grande e hoje grandemente desconhecido contemporâneo de Fernando Pessoa que foi António Botto.Tudo isso é mais que suficiente para falar da importância e da particularidade (uma alimentando a outra) da poesia de Piva, restando, porém, referir o prazer estético de uma poesia que traz a marca – hoje rara – da oralidade. Como diz Alcir Pécora do CD que integra o volume – num texto ensaístico que renova a recepção crítica da obra de Piva: “Quando ele a lê, sua poesia se evidencia como verdadeira presença, [...] uma presença física, tensa, temível e arrebatadora, [...] como [se aí] encontrasse sua melhor condição, o ponto forte em que foi nascida, a mais justa freqüência de sua vibração”.
O QUE SE DISSE:
“A reduzida bibliografia crítica sobre Roberto Piva, apesar dos seus 8 livros publicados desde Paranóia, de 1963, até Ciclones, de 1997, o caracteriza, em um paradoxo, como poeta ao mesmo tempo muito conhecido, porém pouco divulgado e insuficientemente estudado.” (Cláudio Willer)
“O último livro de Roberto Piva – Ciclones – tem todo o vigor da adolescência. [...] O autor parece identificar poesia, beleza, marginalidade e homossexualismo numa mesma construção, de desenho gracioso, de ímpeto dionisíaco, de realização brusca, liberta, ousada”. (Marcelo Coelho)
“Ninguém foi mais rápido no gatilho do que Roberto Piva: no início dos anos 60, ele escreveu Paranóia, um dos retratos poéticos definitivos da metrópole paulistana que emergia e de sua paisagem de morfina, seus arranha-céus de carniça, seus arcanjos de enxofre.” (Jotabê Medeiros)
TRECHO:
o mundo subterrâneo
está mobiliado
por coxas de garotos
selvagens
o mundo solar
está mobiliado
por olhos
de garotos com
almas de pétalas
eu sou o orixá
com pênis
do tamanho do
pênis do elefante
pássaros se dedicam
de imediato à obra
em negro
estrelas em prontidão
relâmpagos
temperam
a cerveja dionisíaca
de Paracelso
cuja espada
faz dançar pirâmides
feito um raio
arrebenta
o plano ruidoso
do nosso
século
(“Xangô e Paracelso”)
O AUTOR:
Roberto Piva nasceu na cidade de São Paulo em 1937, onde sempre viveu. Desde os anos 1960, é figura marcante na paisagem poética paulistana, através da publicação de poemas em vários meios e da participação pessoal em inúmeros eventos. Integrou a Antologia dos novíssimos (São Paulo: Massao Ohno, 1961) e 26 poetas hoje (org. Heloísa Buarque de Holanda, Rio: Labor, 1976, 1.a edição / Rio: Aeroplano, 1998, 2.a edição). Publicou os livros de poemas Paranóia (São Paulo: Massao Ohno, 1963 / São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2000, 2a. edição), Piazzas (São Paulo: Massao Ohno, 1964, 1a. edição / São Paulo: Kairós, 1980, 2a. edição), Abra os olhos e diga ah! (São Paulo: Mass ao Ohno, 1975), Coxas (São Paulo: Feira de Poesia, 1979), 20 poemas com brócoli (São Paulo: Massao Ohno/ Roswitha Kempf, 1981), Quizumba (São Paulo: Global, 1983), Antologia poética (Porto Alegre: L&PM, 1985) e Ciclones (São Paulo: Nankin, 1997). Todos esses livros foram reunidos em três volumes publicados pela Editora Globo: Um estrangeiro na legião, Mala na mão & asas pretas e o recém-lançado Estranhos sinais de Saturno.
Ficha técnica:
Título: Estranhos sinais de Saturno
Autor: Roberto Piva
Organização e nota introdutória: Alcir Pécora
Posfácio: David Arrigucci Jr.
Editora: Globo
Gênero: Poesia
Capa e projeto gráfico: Raul Loureiro e Claudia Warrak
Preço: R$39,00
Número de páginas: 224
Formato: 14 x 21 cm
Informações:
Verônica Papola e Julie Krauniski
E-mail: imprensaglobolivros@edglobo.com.br
Telefones: (11) 3767-7819 / (11) 3767-7863
Editora Globo Av. Jaguaré, 1485 05346-902 São Paulo Brasil www.globolivros.com.br

Um comentário:

touche disse...

amigo everi : mais uma vez visito seu blog .boa a idéia de lembrar roberto piva,um dos ícones da poesia contemporânea..abraços e boa quinta