quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

DISCO SOLO DE FERNANDA TAKAI


FERNANDA LEÃO – NARA TAKAI
Aquiles Rique Reis *
Ao sugerir que Fernanda Takai gravasse um CD com interpretações e arranjos contemporâneos para músicas do repertório de Nara Leão, creio que nem o próprio Nelson Motta, diretor artístico do projeto, tinha noção de quão profunda resultaria a empreitada. Sim, pois para muito além de um tributo a uma de nossas intérpretes mais instigantes, o álbum se transformou num exemplar monumento às releituras, tão buscadas quanto abomináveis algumas conseguem ser hoje em dia.
Evidentemente, Nelsinho, produtor sagaz que só, conhecia bem o potencial vocal de Fernanda Takai. Jovem vocalista do Pato Fu, ela apreciava Nara Leão de ouvir os discos que seu pai colocava na vitrola. Afeita a desafios, foi em busca do universo musical de Nara junto com John Ulhoa – produtor do CD, que tocou guitarra, baixo, violão, teclados, programações e também teve participações nos vocais.Nara Leão baseou sua trajetória de cantora na mais total independência e no mais absoluto cuidado com a qualidade do repertório selecionado. Considerada a musa da bossa nova, logo após o golpe militar ela lançou um LP antológico com composições de Zé Kéti, Nelson Cavaquinho e João do Vale, dentre outros nomes até então pouco conhecidos. Junto com Chico Buarque, e com participações do MPB4 e do Zimbo Trio, comandou Pra Ver a Banda Passar, programa semanal na TV Record. Mais tarde, ao surgir a Tropicália, lá estava ela ladeando os vanguardistas do movimento que sacudiu a música popular.Aí está Fernanda Takai para manter viva a chama Nara. Mas, muito mais do que isto, para demonstrar que homenagear não é apenas reverenciar submissamente, muito menos “desconstruir” (êta moda besta!) coisas belas. Chama atenção o belo projeto gráfico da capa de Onde Brilhem os Olhos Seus (Do Brasil Música), concebido por Andréa Costa Gomes, que estampa relevos, sob fundo branco, contornando um círculo vazado a revelar parte do rosto e os olhos de Fernanda.
Fernanda e John, mais o piano, os teclados, as programações e a voz de Lulu Camargo, trazem à tona o primor do repertório de Nara; criam atmosferas musicais que, se por um lado recriam arranjos e reinventam intenções musicais, por outro dão roupagem alinhadamente modernas e, sobretudo, criativas, a tudo o que Nara já cantara com amor e sabor.A base de tudo é a simplicidade, e sobre ela a voz pequena e afinada de Fernanda sobrevoa. A criatividade está em cada detalhe e em cada acorde, em cada levada. E é um tal de bossa nova virar folk, samba ter cara de dixieland, baião vestir-se de techno, canção mudar o passo para jazz ... É a música vencendo preconceitos, a música derrubando barreiras, cumprindo seu papel que é não ter papel algum, senão o de agradar aos ouvidos de quem a ouve.O CD abre com “Diz Que Fui Por Aí” ((Zé Kéti e Hortênsio Rocha). Vê-se que tudo será diferente daquilo que um dia foi feito por Nara Leão. Fernanda Takai dobra sua voz cantando em terças com ela mesma. E vem “Lindonéia” (Caetano e Gil). Não à toa estes dois momentos fundamentais da carreira irrequieta de Nara servem como cartão de visitas do CD. Eles são o resumo e amplitude de sua inquietude.Um primor o arranjo criado para “Luz Negra” (Nelson Cavaquinho e Irani Barros) – trágico feito Nelson, belo como a voz a cantá-lo. Tem Roberto Menescal num primoroso solo de guitarra em “Insensatez”. Tem Roberto e Erasmo, Capinam e Robertinho do Recife. Tem Tom, Vinícius, Ary e Dolores Duran. Tem Joubert Carvalho e também uma versão de Nelson Motta.A utilização precisa dos recursos com que contam e dominam John e Lulu permitem a Fernanda Takai prestar o tributo proposto, mas também para demonstrar que aquilo que um dia foi feito por Nara para ser sua imagem e semelhança é também o que faz da música e dos músicos brasileiros os mais diversificados e criativos do mundo.
* Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4, produtor e apresentador do programa O Gogó de Aquiles, na Rádio Roquete Pinto FM do Rio de Janeiro, às segundas-feiras, das 15h às 16h: http://www.fm94.rj.gov.br - comunidademayte/colaboração:VANIA MOREIRA DINIZ

Um comentário:

Sala disse...

Acho que o mais importante que o Aquiles disse no texto dele foi isso:
"A base de tudo é a simplicidade" -
talvez o ponto culminante de Nara
tenha sido a sua simplicidade,
que é o mais difícil: interpretar o
que o autor quis dizer sem colocar na interpretação as suas
idiossincasias. E acho q Nara foi a artista menos idiossincrpatica na arte brasileira.
E pelas poucas faixas do LP da Fernanda Takai que ouvi na radio uol, o que me surpreendeu foi tbm isso, como ela conseguiu uma releitura , que é a sua prórpia interpretação, sem deixar de ser fiel aos autores e à interprete original.
Parabéns e sucesso.
E, Fernanda, sei o repertório de Nara todinho de cor, o período que vai de 1964 até 1980, e se vc quiser fazer dupla comigo é so me chamar. Afinal, temos que mostrar ao país que Nara Leão também deixou seguidores.
Abraço fraterno, do
Murilo Pereira.