segunda-feira, 31 de agosto de 2009

VIDA CULTURAL EM ARAÇATUBA 6


VIDA CULTURAL EM ARAÇATUBA NOS ANOS 80/CAP. 6
everi rudinei carrara/
nesse trem também !
A linha férrea que cortava Araçatuba ao meio em 1985, era uma divisória social entre os bairros populares e centrais.Trem da alegria, trem da discórdia, trem dos infortúnios, trem das orgias, trem do marasmo, trem dos sonhos,trem sinistro, trem da espantosa burrice, trem das cabeças de boi dos fazendeiros fantasmas. A travessia pela linha férrea provocou muitas mortes. Aliás, esse trem, que vinha desde Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, atravessava todo o Pantanal e ia até Bauru, era conhecido popularmente como “Trem da Morte”. Anos depois ela foi retirada cedendo lugar à atual Avenida dos Araçás e Mário Covas (eu nunca aprovei esse nome, e teria optado por algum nome emblemático da cultura brasileira). Percebíamos que a distinção de classe em nossa cidade e no país sempre procurava algum álibi. As pessoas querem se distinguir das demais, excluirem-se,delimitar espaços, idéias,cores e nomes,como se não fossemos uma única família humana. Se você não consome determinada grife, dirige certo automóvel luxuoso, ou se locomove de ônibus, se utiliza de guarda-chuva, anda a pé ou de bicicleta, sofre rebaixamento social, sua cidadania é atirada no lixo. O ser humano complica tudo, e depois transfere suas frustrações ao destino supostamente arquitetado por entidades celestiais.Eu e EDSON JOSÉ DA SILVA (poeta áfrica) rumamos para Marília; JOSÉ JORGE DA COSTA NETO (residia em Marília e terminava o curso de filosofia pela UNESP/MARÍLIA-SP) e nos convidava para morar em sua república para estudantes);MARCELINO DUARTE estudava informática no MACKENZIE/SP ; VALDIR CALIXTO tocava seu violão pelas noites paulistanas.Ocorre que Marília , São José do Rio Preto e Bauru haviam crescido muito,e novas oportunidade de estudos acadêmicos e convivência cultural se expandiam por essas cidades. Embarcamos nessa! Mas o que mais me comovia ainda em Araçatuba, era a persistência salutar e audaz do "JULIÃO do cine-clube" em divulgar películas cinematográficas do circuito underground europeu para os olhos araçatubenses, ávidos por beleza e ousadia feroz. A exibição de “Encouraçado Potemkin”, clássico de Eisenstein (exibido pela primeira e única vez na cidade, até os dias de hoje) foi um marco deste ano. Uma luta titânica do Julião,José Laércio Verza e outros dom quixotes que se propunham também a ajudá-lo, marchando contra todos os moinhos de vento do retrocesso.Embarcamos nesse trem também!

2 comentários:

ALAORPOETA disse...

É isso mesmo, o ser humano complica tudo. Faz de tudo artificial. E o que não faz artificial é por que é celestial.A pobreza existe, mas muito mais a probreza de espírito.Paulo Leminski disse: essa idéia ninguém me tira matéria é mentira. Quando vou a velório, para mim, enquanto a reza impera e só Deus consola, o efeito é ao contrário, será que não percebem que o celestial não existe, o velório é artificial e a matéria apodrece? O que realmente valeu a pena? O defunto cheira a rosa, a rosa cheira defunto e a mediocridade não para. O caixão custa mil. O buraco mais mil. Quem tem dinheiro é feliz até na hora da morte. Vi um defunto sorrir. O mundo é esquisito. É esquisito para os humanos, na verdade, meu cachorro me disse, não vejo nada disso, para mim tá tudo muito bom e olha que nasci e minha vida será só quinze anos de pura felicidade.

Jose Laércio Verza disse...

Everi, supercalifraginistic... Ou seja, imbatível sua crônica sobre os anos 80... Você foi escolhido por mim (ou por Deus, tanto faz) o cronista mais lúcido que a velha Ata já produziu. Seu fraseado não tem anacronismos. Gosto de um pouco de nostalgia também...
José Laércio Verza