quarta-feira, 26 de março de 2008

VANIA MOREIRA DINIZ


Meus velhos Amigos
Vânia Moreira Diniz
Hoje quando acordei estava uma manhã cheia de sol, embora com a característica dos dias frios de inverno. Se for possível chamar de inverno, dias cujo sol queima ao tocar a pele é a esse mesmo que me refiro. Costumo visitar um casal já idoso na periferia de nossa cidade, para quem levo comida, remédios e gás. E sempre achei que eles me davam lição de vida ao me mostrarem, o sofrimento e uma existência quase miserável com coragem e alegria. Tinha recebido a notícia de que Sr Antônio ia se operar de um câncer na próstata e meu coração doeu à lembrança daquele casebre em que viviam.Ele sempre com uma sonda para facilitar a deficiência que o amargava e Dona Maria, curvada pela artrite e mal conseguindo andar o necessário dentro da própria casa. Foi com dificuldade e muita tristeza que consegui bater naquele frágil portãozinho que me acostumara já a visitar.E com os olhos marejados vi aparecer a figura de um dos netinhos do casal, que já me conhecia. Olhei-o, beijando-o sem conseguir perguntar pelos avós, mas ele me disse.
-Eles perguntam todo dia por você!
Fiz apenas um carinho nos cabelos esvoaçantes do garoto sem conseguir falar enquanto entrava naquela casinha pobre, que tantas vezes me entristeceu pelo abandono e devastação. Seu Antônio foi o primeiro que me viu e seu rosto se iluminou, se é possível dizer isso de uma pessoa tão fraca, pálida e acabada. Agachei-me perto de sua tosca cama procurando fazer-lhe um carinho no rosto e beijando-o em seguida.Dona Maria entrou então por um vão que era apelidada de cozinha e levantei-me para abraçá-la.
Tudo ali era tão patético que mesmo sem querer, as lágrimas não tinham tréguas. E por incrível que pareça, na coragem que ostentavam, parecia que mais me consolavam do que eram consolados. Foi então que Seu Antônio me disse:
-Vou me operar, minha filha!
Achei-o tão fraco, que temia por uma operação naquelas circunstâncias.
- É mesmo necessário? O que disse o médico?
-O doutor disse que estou muito velho e fraco. Que seria melhor não operar.
Mas eu quero. Não agüento mais essa sonda. Minha filha vai ter que assinar.
-Quer dizer que ela vai ter que autorizar é isso?
Ele balançou a cabeça desconsolado e compreendi que era uma operação de alto risco mas na qual queria tentar um alívio. Olhei então para Dona Maria e não pude me conter ao vê-la tão esmagada pela dor e pelo medo de perder o velho companheiro. Senti sua dor no olhar arrasado em que quase me pedia socorro. E pela milionésima vez eu lamentava em desespero a impotência que nos domina em momentos como esse.Pedi ao rapazinho que buscasse no carro o que tinha trazido para eles, constatando que já quase não existiam mais alimentos dentro de casa e prometi conversar no Hospital com o médico que estava atendendo ao meu triste amigo. Meu coração estava extremamente doído e perguntava-me como era possível que a vida fosse realmente injusta com pessoas tão maravilhosas. Vi quando Dona Maria sorriu e disse:
-Vou comer macarrão, hoje, minha filha!
-gosta de macarrão? Eu também adoro!
-Sim, mas só como quando você traz nas compras.
-Não tem importância. Trarei mais e poderá comer sempre que quiser.
Minha garganta estava embargada com um nó imenso a interceptar que as lágrimas descessem de tanta emoção. Abracei-os com carinho imenso pensando como seria difícil minha conversa com o médico que estava tratando o meu velho amigo.E ainda mais imaginei como me sentia orgulhosa de poder conviver com pessoas fantásticas, tão nobres que em meio ao sofrimento se mantinham altivas e compreensivas e cuja revolta não faziam parte de seu mundo.
Vânia M. Diniz é escritora, cronista, poeta e humanista, com sites na Internet, e-books e livros publicados.

Um comentário:

além mar peixe voador disse...

comovente, supreendes
tuas narrativas carregadinhas de afeto,
bonito, parabéns manamiga tão querida,
abraço de carinho, tua grata virgínia